Ainda a propósito do enquadramento da lusofonia no quadro da RAEM

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Retomando um pouco a linha da última crónica sobre o espaço da lusofonia no contexto da RAEM, volto ao tema sem obviamnete o concluir ou o esgotar, até porque é sempre actual desde que o queiramos manter na agenda das nossas reflexões.

Em termos práticos, podemos, apesar da fragilidade com que se manifesta, considerar que continua a existir uma “marca” daquilo que os portugueses vão fazendo em Macau, ou seja: a lógica de “um país, dois sistemas”, é visível em Macau pela manutenção da herança e da presença portuguesa em vários domínios e que se traduzem por uma participação activa na sociedade civil, concretamente no espaço confinado às questões jurídicas, culturais e da expressão da língua portuguesa, mesmo que seja, nalguns casos, apenas emblemática.

Esta posição, ao ser assumida pelo próprio Executivo local, levou a que ao longo dos últimos anos pudesse permanecer o simbolismo da importância da matriz lusófona no contexto social da RAEM, isto apesar da mudança da tutela do poder da Administração Pública do território.

A partir da altura em que a Administração passa para a tutela definitiva da Republica Popular da China, altera-se a própria conjuntura das decisões e das políticas, se bem que, do ponto de vista do reflexo na sociedade civil o esforço foi meritório, optando pela adopção de uma linha de continuidade, ou seja, decorreu de um processo de não ruptura em que o modelo se desenvolve naturalmente com a mudança apenas no foco do poder político instalado.

Em síntese, e no essencial, o que marca a nova contextualização do espaço da Região Administrativa e Especial de Macau é a capacidade de se manter como espaço singular face à sua integração plena na Republica Popular da China.

Ao fim e ao cabo, essa particularidade assenta no facto de permitir mostrar ao Mundo que o poder chinês foi capaz de legitimar, no seu próprio espaço, a herança histórica da lusofonia num contexto da abertura da China ao Ocidente, situação essa que têm sabido perpetuar ao longo destes últimos anos.

Podemos deste modo admitir que a estratégia adaptativa da Região Administrativa Especial de Macau aposta, essencialmente, em se posicionar como alternativa válida e competitiva, nos novos espaços da chamada China Moderna e para tal, é fundamental que preserve os seus traços distintivos, entre os quais o seu legado da herança lusófona.

Ora, apesar da enorme importância que hoje se dá às relações económicas e comerciais em sede da RAEM como a abertura aos mercados lusófonos não é esta que lhe dá identidade, apenas é circunstancial e ao “sabor dos ventos”, o que estrutura a sua singularidade é o caracter simbólico da presença lusófona no quotidiano de Macau, recolocando assim a importância da perpetuação da matriz cultural para a vida de Macau e, nessa medida, a presença dos portugueses (e dos falantes de português) no território é crucial e fundamental. Veremos até quando poderão resistir os que por cá habitam.

Neste sentido, seria também interessante incluir nas nossas acções e preocupações uma estratégia de caracter geracional que possa vir a repovoar e a reposicionar os futuros portugueses em Macau como elemento central da diplomacia portuguesa, podendo obviamente, articular-se com a esfera económica e comercial mas não ser subsidiária desta última. Fica a sugestão e a ideia a quem possa interessar.

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Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa

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