A Voz interior

1-luis-sequeira

O Evangelho deste Quarto Domingo de Páscoa é curto de extensão, mas profundo em conteúdo. Tendo como pano de fundo a figura do «Bom Pastor» e da sua relação com as ovelhas ao seu cuidado, eis que ouvimos Jesus a afirmar , entre vários outros aspectos, o seguinte: «As minhas ovelhas escutam a minha voz. Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-me. Eu dou-lhes a vida eterna e nunca hão-de perecer e ninguém as arrebatará da minha mão…».

Se assim é, porque é que tantos, muito olimpicamente, não fazem caso desta afirmação tão categórica de Cristo sobre a Sua proximidade e intimidade com a pessoa humana? Ou ainda: porque é que tantos homens e mulheres, no nosso tempo, na nossa sociedade actual, sobretudo em países formados à sombra da tradição cristã, continuam adormecidos, apáticos ou aversos à questão da existência de Deus nas suas próprias vidas?
Por um lado, a Palavra de Deus fala-nos continuamente da intimidade entre o Criador e a criatura, da relação amorosa entre Deus e o Homem, de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Por outro lado, a Sociedade Moderna mais parece querer afirmar que a Humanidade não precisa de Deus.
Deus amou-nos de tal maneira que enviou o Seu próprio Filho, Jesus Cristo, feito homem. Pela Sua Morte e Ressurreição, venceu e libertou-nos de todo o Mal, encarnado na Dor e no Pecado presente na nossa existência de que a Morte é a expressão máxima do seu poder.
É neste contexto do Amor total e incondicional de Deus para com a Humanidade que a parábola dita do «Bom Pastor», com palavras mais simples e ligadas à vida pastoril, nos poderá fazer compreender melhor não só esse diálogo existencial de conhecimento e amor entre Deus e o Homem mas, ao contrário, também as suas dificuldades.
Porquê essa distância entre Deus e o Homem? Porque razão se afasta o Homem?
As palavras da Sagrada Escritura acerca do «Bom Pastor», de quanto diz respeito ao cuidado pelas suas ovelhas, são extremamente positivas: Conhecê-las. Chamá-las pelo seu nome. Guiar, ir à frente. Conduzi-las aos pastos verdes. Dar a vida pelas suas ovelhas. Ninguém as arrebatará. Dar-lhes-á a vida eterna. Ao mesmo tempo, as mesmas Escrituras dizem que as ovelhas escutam, conhecem-me, seguem-me…
Então, onde está, na relação entre o Homem e Deus, a raiz ou a razão da apatia, do afastamento ou da negação de muitos dos nossos contêmporâneos?
Pela parábola do «Bom Pastor» Deus é íntimo e chama o Homem à intimidade. E é aqui que recordamos o Mestre a proclamar: «As minhas ovelhas escutam a minha voz». Ora, sem essa capacidade de entrada no nosso ser mais interior, não conseguiremos ouvir a voz de Deus, essa voz que o profeta Isaías comparava a uma «suave brisa».
O problema de ouvir ou não ouvir a voz de Deus, portanto, não se encontrará, afinal, em nós mesmos? Aumenta drasticamente a incapacidade do homem ou da mulher de hoje de estar só, recolhido ou recolhida , em silêncio. Bombardeados por todos os lados e horas a fio pela rádio, pela televisão e pela internet e dominados compulsivamente pelos mesmos, o nosso interior não tem nem espaço nem condições para acolher « a voz… suave como a brisa…» de Deus.
É neste «Caminho Interior» que o grande pensador Soren Kierkgaard compreende, na sua reflexão psicológicas, teológica e filosófica sobre «A Angústia» no profundo do coração humano, o grito e o clamor para Deus.
Luís Sequeira. Jesuíta. Antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau.

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