O Sopro de Pak Tai:De Tamão a Chek Lap Kok

 

FOTO Sopro de Pak Tai

As ilhas que hoje integram o território de Hong Kong inserem-se nesse universo onde se exercia o corso e que povoa as páginas de livros como a Peregrinação. Algumas dessas ilhas seriam inclusive poisos de piratas, tendo numa delas desembarcado, décadas antes da passagem de António Faria, Fernão Mendes Pinto e companhia, o primeiro português a chegar à China. Corria o ano 1513, e esse homem, transmontano de gema, chamava-se Jorge Álvares, homónimo, quiçá parente, de outro Jorge Álvares, também nado e criado em Freixo de Espada-à-Cinta, que acompanharia Mendes Pinto na sua segunda viagem ao Japão.

Na sua obra Revisitar os Primórdios de Macau: Para Uma Nova Abordagem da História, os académicos Wu Zhiliang e Jin Guo Ping escrevem o seguinte: «A primeira terra onde chegaram os portugueses para entrar no mundo chinês é agora o novo ponto de partida, o novo aeroporto internacional de Hong Kong, o Chek Lap Kok, donde os chineses partem agora para o resto do mundo.»
 De facto, não podia haver maior ironia da história, ou chamemos-lhe antes coincidência. A simbologia está lá toda e certamente perdurará ao longo dos tempos, até porque se sabe que Jorge Álvares colocaria nesse local um padrão a assinalar o feito. Mas antes de explorarmos esse aspecto, o melhor é regressarmos à viagem desse transmontano enviado ao Oriente como oficial da Coroa.
 Em Goa e Cochim, onde passaria algum tempo, Álvares terá muito provavelmente ouvido falar de «um povo branco que usava cabelo comprido e tinha barbas apenas à volta da boca» que ali desembarcara há muitas décadas, «equipado de couraças, capacetes e viseiras, viajando em navios de quatro mastros», ignorando que essa estranha gente de que tanto se falava eram os chineses, cujas viagens oceânicas, protagonizadas pelo almirante Zheng He, precederam em décadas as portuguesas.

Da Índia, Jorge Álvares seguiu para ilha de Samatra, onde se abasteceu de pimenta e acabou por se ver envolvido num conflito militar com o sultão de Bintão, capitaneando uma galé na armada portuguesa, já que de trato e guerra eram feitas as viagens de então.

O importante porto de Malaca, onde o primeiro encontro luso-chinês se realizara não muitos anos antes, seria o destino seguinte dessa sua viagem. Quando partira para Malaca, em 1508, Diogo Lopes Sequeira levava instruções do rei D.Manuel para tentar saber tudo sobre os chineses: o seu comércio, a sua religião e a sua capacidade militar. E, de facto, nesse porto, Sequeira deparar-se-ia com alguns juncos chineses, tendo tido oportunidade de contactar com os seus ocupantes, havendo relatos de que teria comido a bordo de uma dessas embarcações. Uma carta anónima da época dá-nos a seguinte descrição: «São homens alvos e bem-dispostos, não têm barba, salvo no bebedouro, os olhos pequenos e os lagrimais afastados dos narizes, cabelos compridos e quase pretos e ralos.»

Os portugueses viram desde logo nos chineses possíveis aliados, pois, ao não professarem o islamismo, eram «obrigatoriamente cristãos», ou, melhor dizendo, uma espécie estranha de cristãos. A ausência de uma série de tabus da parte dessa classe muito especial de orientais, que comiam «toda a vianda», bebiam vinho e «traziam consigo as suas mulheres», seria um factor determinante na aproximação imediata das duas partes, podendo dizer-se que o primeiro encontro entre ambos seria, naturalmente, amistoso.

Em 1513, o novo capitão de Malaca, Jorge de Albuquerque, enviaria Jorge Álvares, com o objectivo claro de, pela primeira vez, navegar até à China, levando consigo o carregamento de pimenta que trouxera de Samatra, pois sabia-se que essa especiaria era muito apreciada pelos chineses. Existem poucas referências a esta histórica viagem, sendo João de Barros o único historiador a referi-la, e apenas incidentalmente. Barros menciona a chegada de Jorge Álvares à ilha de Tamão, onde ergueria um padrão com as armas de Portugal, com a intenção de comemorar essa «descoberta» da China. Pouco tempo depois, morreria um filho seu e o navegador enterrá-lo-ia junto a esse padrão, onde ele próprio seria sepultado, sete anos mais tarde, pois faleceria, vítima de doença, no decorrer de uma outra viagem à China. Cartas de mercadores italianos, que aludem a esta viagem de Álvares, o primeiro contacto comercial luso-chinês que se conhece, referem que os portugueses não foram autorizados a desembarcar em nenhum dos outros locais do delta do Rio das Pérolas, mas que, não obstante, «puderam fazer o seu comércio».

A partir da viagem de Jorge Álvares, a primeira realizada por povos europeus à China, por via marítima, as naus portuguesas não pararam de aportar às praias e portos das ilhas da baía de Cantão, começando os mercadores, soldados e missionários, assim, de um modo quase espontâneo, a inserir-se nas redes regionais de comércio com os produtos asiáticos de quem eram intermediários.

Como explicam Wu Zhiliang e Jin Guo Ping, na obra supracitada: «A chegada de Jorge Álvares a Tamão constitui o início da presença portuguesa na China e a retoma de contactos entre a Europa e a China, suspensos desde o fim da Pax Mongolica, no âmbito da expansão europeia e da redescoberta da China.»

IIM LOGOTIPO - 2015 (2)

 

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e investigador da expansão portuguesa.

 

 

 

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