Para além do imediato

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Dos diversos encontros de Jesus Ressuscitado com os seus amigos, três são-nos aprentados com especial relevo nestes primeiros domingos do tempo Pascal. Refiro-me aos de Madalena, Tomé e Pedro. Todos eles constituem um convite a uma nova maneira de estar na vida. Transportam-nos  como que a qualquer coisa  que vai para além do que é habitual, seguramente mais profundo e abrem- nos a uma compreensão da realidade que nos toca e circunda que ultrapassa em muito a nossa sensibilidade imediata às pessoas, às coisas, aos acontecimentos, perante a natureza e até diante do próprio Deus.

Jesus ajuda Madalena a ver com os olhos interiores e não se deixar levar pelas as aparências, «pensando que Ele era o hortelão.» Faz o mesmo a Tomé que quer «meter o dedo no sítio dos cravos e mão no Seu lado», chamando-o à atenção do tocar na fé. Por fim, Pedro, o Chefe dos Apóstolos, no seu diálogo com o Mestre, aprende o ouvir no íntimo do seu coração  a voz d’Aquele que lhe diz «apascenta as minhas ovelhas, em vez de se deixar enredar nas teias das experiências dolorosas do passado.

Madalena, outrora mulher perdida no turbilhão da vida amorosa, em contacto com Jesus Cristo,  torna-se Sua fiel discípula. Contudo, ‘o conhecimento interno’ do  Amor de Deus e da pessoa de Jesus Cristo é algo que precisa continuamente de purificação. Não é uma realidade acabada uma vez por todas. Cresce em termos de eternidade.

A cena descrita por São João junto ao túmulo vazio mostra que Maria de Magdala, apesar de ter Jesus, transformado pela glória da Ressurreição, diante de si, não consegue reconhecê-lo. É simplesmente «o homem da horta». Os olhos interiores estão obnubilados. Não deixam ver. Aliás, recordemos que ao longo da vida pública de Cristo, há uns que vêem n’Ele o profeta Elias, outros Jeremias e outros ainda João Baptista. Homens de Deus, sem dúvida, mas nenhum deles é o Filho de Deus, o Messias. Os apóstolos chegaram até ao ponto de ver em Jesus  um «fantasma», quando estavam amedrontados na tormenta do mar de Tiberíades. Uns atreveram-se mesmo a afirmar que «é por Belzebu,príncipe dos demónios, que Ele expulsa os demónios.» Cegos! De coração  roído pela inveja, pelo orgulho e pela sede de poder e prestígio.

Tomé, por seu lado, com a sua teimosia, revela a imperfeição de uma atitude muito natural na psicologia humana: o tocar para crer.  Jesus, porém, desafia esse critério. O tocar  no interior  do coração é muito mais real e divino, é tocar as coisas por dentro. Na Fé, no Amor e em Deus, Trindade Santíssima.

Recordemos a admiração de Jesus Cristo quando aquele centurião Lhe pedia a cura do seu criado. O militar romano mandou-Lhe dizer por uns amigos: «Não te incomodes, Senhor, porque não digno que entres debaixo do meu tecto, pelo que nem me julguei digno de ir ter contigo.» Não precisava do tocar sensível. Bastava-lhe o tocar em  Espírito e Verdade. O toque divino do Salvador.

Numa outra ocasião anunciaram a Jesus: « A Tua mãe e os Teus irmãos estão lá fora e querem ver-te».  A  resposta foi peremptória: « A Minha mãe e os Meus irmãos são aqueles que ouveem a Palavra de Deus e a põem em prática».

Ainda noutro momento alguém grita: «Felizes as entranhas que Te trouxeram e os seios que Te amamentaram»,  ao que Ele retorquiu:  «Felizes, antes, aqueles que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática.»  Não é o estar em nossa casa, nem o aconchego dos pais e irmãos, nem mesmo o amor dos seios maternos que, radicalmente, nos fazem felizes. O verdadeiro Amor exige desprendimento. A  nossa  necessidade intrínseca e natural de Amor ou, por outras palavras,  a nossa angústia existencial de Amor só é transformada em felicidade na experiência íntima do Amor de Deus que vive continuamente na profundidade do nosso coração, do nosso ser.

Pedro só  à  terceira pergunta de Jesus: «Simão, filho de João, tu amas-Me?»  é que consegue descobrir e, portanto, ouvir a tristeza que cala ainda no fundo do seu coração, por causa da negação dias antes, durante a  paixão. Cristo sabia que essa experiência amarga continuava no íntimo de Pedro. Sim, pergunta três vezes. Não porque o queira massacrar. Antes, pelo contrário: quer libertá-lo, pois ele não está consciente. É qualquer coisa de muito bem escondido nas cavernas dos seus pavores. Não ouve.

Ao mesmo tempo que o faz ir ao passado para que ele não fique enredado e permaneça sempre ‘a olhar para trás’, o Senhor repete-lhe o convite: «Apascenta as Minhas ovelhas». Porém, Pedro não consegue ouvir o sentido mais profundo dessas palavras. O Mestre não se está a fixar na traição.  Desafia-o positivamente a uma nova missão, como Chefe da Igreja. Simão Pedro, de  facto, nem ouvia a dor e atristeza no fundo de si mesmo nem o novo convite nem a maior  intimidade a que Cristo o chamava: « Segue-Me».

Ver, Tocar e Ouvir interiormente a Realidade é próprio do verdadeiro sábio. Ele perscruta as razões que olhos superficiais não alcançam. Toca silenciosamente os corações que gemem sob o peso das angústias desesperantes. Ouve o grito sem palavras do ser humano que aspira à Liberdade, ao Amor. Enfim, a Deus.

 

Luís Sequeira, Jesuíta. Antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau

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