O sopro de Pak Tai: Macau e o Camboja

 

FOTO do PAK TAI desta semana

No seu livro «Batalhas da Companhia de Jesus», um verdadeiro repositório das actividades dos jesuítas na Ásia ao longo do século XVI, o padre António Francisco Cardim diz-nos que o reino do Camboja não tinha “até agora dado matéria de larga escritura, porque nem na sua grandeza e sítio da terra e províncias, em riqueza tem coisa digna de se contar, e muito menos na conversão dos seus naturais à nossa santa fé”. O missionário ressalvava, no entanto, que era abundante de arroz e tinha “muito charão, chumbo, cera, alguma águila e japão”. Informa-nos ainda o cronista que “o benjoim amendoado descia pelo rio abaixo do reino dos Laos, como as pontas de abada”. A razão para tal abundância de mantimentos devia-se à actividade comercial dos javaneses e cochinchineses, que faziam escala “na cidade de Rasseca, metrópole de todo o reino”. Cardim não se esquece de falar também “dos portugueses de Macau que tratavam” em muito desse negócio, “por falta de comércio com o Japão e as Filipinas”, dando-nos assim conta, com esse pequeno texto, das relações existentes entre Macau e Camboja, e, por correlação histórica, entre Portugal e o Camboja. Na verdade, no que à implantação do cristianismo diz respeito, a missionação traduzir-se-ia num total fracasso. O dominicano Frei Gaspar da Cruz, autor do Tratado das Cousas da China e do Reino de Ormuz, um dos primeiros portugueses a visitar o sudeste asiático, no início do século XVI, apesar de ter permanecido no Camboja durante um ano (1555–56) apenas conseguiu baptizar um nativo, que acabaria por falecer. Muitos dos missionários que lá estiveram ficariam, de algum modo, ligados a Macau. Foi o caso de Pero Marques, o primeiro religioso da Companhia a visitar o reino, “no ano de 1616, em que se intentou a missão de Camboja”. Marques, natural de Mourão, viera desterrado do Japão “em ódio de nossa fé no ano de 1614”, como relatam as crónicas da época. Trabalharam também no Camboja o português André Gomes, de 1670 a 1680, e João Baptista Maldonado, nascido na Bélgica, que chegou a Macau em 1667 e faleceu em Phom Penh em 1699. Um outro dominicano, António Caldeira, que em 1585 residia em Macau, missionou nesse país do sudeste asiático em 1598. No Camboja viveram também, desde 1724, vários capuchos italianos, cuja ida para esse reino fora patrocinada pelo Senado de Macau, convencido que desejavam cooperar com os sacerdotes do Padroado Português. Cedo se descobriu que era seu objectivo substituir esses mesmos missionários. Não obstante, em 1725, o Senado passaria cartas de recomendação a dois missionários, também italianos mas da Propaganda Fide, que a Macau aportaram, vindos de Portugal. Partiriam com as cartas que os recomendavam aos reis do Camboja e de Johore, que tiveram resposta positiva face a tais  documentos. A este respeito seguir-se-ia uma troca de correspondência entre o Senado, o monarca khmer e o governador de Macau da época, Antonio Carneiro Alcaçova. Apesar de todos os tumultos políticos, o certo é que houve sempre um comércio quase ininterrupto, embora escasso, entre as costas da Cochinchina e do Camboja e a cidade de Macau. Frequentemente, esta servia de porto de passagem na viagem entre Manila e o Camboja, que se tornara bastante regular. As relações comerciais só não foram mais intensas porque os portugueses se recusaram a estabelecer uma feitoria em Turão, pouco acima de Faifo, na costa da Cochinchina, à semelhança do que haviam feito no Japão e no Sião. E isto, apesar das vantagens oferecidas pelos soberanos locais. Faifo era um grande centro comercial dominado por comerciantes japoneses e chineses. Bem cedo a concorrência dos holandeses, que tinham feitoria na Cochinchina, se transformou em ameaça. Não obstante, foram muitos os portugueses de Malaca e de Macau que optaram por se estabelecer na região. O que vem em contra a observação negativa de Cardim, que do Camboja dizia que «nem na sua grandeza e sítio da terra e províncias, em riqueza tem coisa digna de se contar». Em 1639 o Japão expulsa os portugueses e cessa o comércio com a Cidade do Nome de Deus. Perante isto, e para evitar que a fazenda que viera do Japão sem lá ser vendida caísse em poder holandês, o Senado interditou todas as viagens para a Cochinchina, Tonquim, Champa, Macassar, Camboja e Sião. Abriu, contudo, algumas excepções, citadas por Manuel Teixeira: «A Gaspar da Fonseca permitiu que fosse a Camboja buscar o navio que lá tinha», escreve o historiador. A 6 de Dezembro de 1639 o Senado «autorizou Rodrigues Carvalho a ir a Camboja buscar mastros e madeira para reparar o seu navio, pois havia muita necessidade de navios em Macau». Mas o comércio local iria receber ainda novos golpes. Em 1641, Malaca é conquistada pelos holandeses e, como consequência, muitos portugueses de Malaca refugiam-se em Macassar e no Camboja. Em 1640 dá-se a Restauração em Portugal. Porém, em Macau, a aclamação do Duque de Bragança como rei de Portugal só acontecerá em 1642. Na sequência disso, Manila cessa o rendoso e directo comércio existente entre as duas cidades. Que permaneceria interrompido entre 1642 e 1645. Para poder sobreviver, Macau virou-se para os portos do sul. Os barcos de Macau destinados à Cochinchina e ao Camboja faziam negócios e levavam ou traziam missionários. O Ta-Ssi-Yang-Kuo dá-nos conta que em Março de 1667, partia para o Camboja António Franco e respectiva embarcação. Pelo caminho faz aguada na Cochinchina, onde entrega «ao rei as peças de seda que lhe tinha comprado com a prata que o ano anterior tinha trazido do mesmo rei o dito António Franco com o intuito de lha empregar em peças de seda». Eram muitos os naufrágios, com perda de gente e fazenda. Escreve-se a propósito: «Com falta de tanta gente naufragada, além da que na terra tem morrido, parece Macau uma cidade de mulheres, as mais delas pobres e desamparadas, e vendo-se a terra tão pouco avultada em cabedais e muitas casas perdidas, indo tudo cada vez em maior dificuldade». Manuel Teixeira recorda o caso de «um navio português que naufragou nas costas da China, conseguindo os sobreviventes alcançar Macau, onde o padre Jimenez veio a falecer em 25 de Dezembro nos braços do padre António Caldeira, antigo missionário de Camboja».

Joaquim Magalhães de Castro. Escritor e investigador da Expansão Portuguesa.

IIM LOGOTIPO - 2015 (1)

 

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