A consolação

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Consolar o coração é característica dos encontros de Jesus, depois da Sua Ressurreição. A experiência da agonia, da morte, do túmulo a que o Senhor Jesus se sujeitou e, pior ainda, a experiência da aparente ausência de Deus em toda esta realidade tão cruel destroçou os corações dos seus amigos mais íntimos, quer apóstolos quer discípulos. Os dois que seguiam na estrada de Emaús nada mais são que a expressão viva do quanto os acontecimentos daquele fim de semana tocaram  os membros daquela  primeiríssima comunidade cristã:«Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas afinal é já o terceiro dia depois que isto aconteceu.» Esperança perdida! Corações tristes e desiludidos!

O facto histórico da Ressurreição, iluminado pelo dom da fé, por si só, pareceria ser suficiente para mostrar que Jesus Cristo venceu o sofrimento, a angústia, e a morte. Mais: pareceria ser convincente para que todos acreditássem  que Ele, O Senhor Ressuscitado, destruíu  mesmo o poder do Espírito do Mal, raiz e a fonte de todo o Pecado que entrou e continua a afectar a Humanidade. Por outras palavras, ao tornar-se  verdadeiro Homem, vivendo  na sua própria carne todos esses passos da fragilidade humana, Jesus Cristo, ao terceiro dia, quando resssuscitou, conseguiu essa poderosa e decisiva  vitória sobre todos esses limites e imperfeições da natureza humana.

Constatamos, porém, que deste tão proclamado Mistério Pascal – isto é, a Morte e a Resssurreição do Senhor Jesus –  temos um conhecimento bastante mais intelectual e espiritual,  mas bem pouco  existencial. Não sabemos como encarná-lo na nossa vida de cada dia.

Jesus Cristo ao acompanhar os discípulos que deixam para trás, em penosa desilusão, a cidade de Jerusalém,  apresenta-nos uma verdadeira pedagogia de como ajudar um coração destroçado por uma Angústia mortal e com a terrível sensação de que nada de Bom existe em si e apenas o Mal o domina. O acompanhamento que Jesus faz aos discípulos,  perdidos e atarantados,  pode ser modelo para todos nós de como trazer alguém das profundezas da dor e da confusão até à experiência pessoal da «consolação»,  que se expressa em liberdade interior, paz, amor e, por fim, um novo entusiasmo.

Jesus, primeiramente, caminha ao lado, em silêncio. Sem interferir, escuta. Esta é a regra de ouro, se queremos, com verdade, ajudar quem se snta acabrunhhado pelo desgosto. Ouvir, antes de tudo o mais, simpatizando com o coração em lágrimas.

Mas, com frequência, a via escolhida, nesta nossa terra de Macau, é falar, falar, falar, tagarelar, desabafar. Tanto conselho, tanta explicação, tanto discurso. Calemo-nos. Demos espaço ao outro que deseja partilhar o seu pesar e procura, acima de tudo, um espírito e um coração acolhedores.

Num segundo momento, Jesus entra na conversa. Para começar, pergunta delicadamente:«Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?» Depois, é  introduzido no assunto propriamente dito quando Lhe respondem ao seu inquisitivo: «Que foi?» Inteirado, então, do problema que preocupa os discípulos, o Senhor ajuda-os a compreender o sentido mais profundo dos acontecimentos referentes à morte de Jesus de Nazaré. Fá-lo exclamando: «Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na Sua Glória?» «Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. Este é um exemplo acabado de como se deve conversar com uma pessoa  perturbada interiormente por acontecimentos dolorosos.

Ao princípio, entabular respeitosamente o diálogo. Estar bem esclarecido sobre a problemática em questão, é o passo que se segue. Por fim, com apurada consciência dos diferentes aspectos e acompanhado de uma boa visao de conjunto, procurar dar sentido aos factos aparentemente desconexos e chegar a uma compreensão mais profunda, que ultrapassa aquilo que, à primeira vista, parece contradição.

Macau. Contemplemos a nossa praça pública. Escutemos os nossos diálogos. Diálogos? Que diálogos? Cada um fala de si e para si, com os seus botões. Procura impor a sua mercadoria. Quantos preconceitos, juízos apressados, esquemas mentais anquilosados! São meias verdades que encobrem mentiras. Ambições solapadas que, maquiavelicamente, arquitectam pôr e dispor, usar e abusar, desfazer-se de pessoas a seu belo prazer.

Esclarecidos que estão os discípulos, Jesus afasta-se. Quer prosseguir o Seu caminho. É o terceiro momento. Embora chamado a partilhar, como amigo e companheiro, as confidências dos dois viajantes. Ele, o Senhor, respeita a sua intimidade. Deixa a eles a liberdade de decidir o próximo passo. O convite surge, por fim, com insistência:«Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite.» Partilhar a mesa não é para todos. Apenas alguns são chamados. Os verdadeiros íntimos do coração.

Uma vez mais,  reparemos na profundíssima delicadeza do trato do Senhor. A sua transparência interior. O respeito divino pela liberdade humana. Após ter feito um favor, ajudando a discernir a verdade dos acontecimentos da Paixão do Messias, o Filho de Deus, retira-se rapidamente. Não se aproveita. Não abusa. Não força a entrada na intimidade, nem no coração, nem na vida particular dos seus amigos. Ajudou a esclarecer a inteligência, mas não se permite entrar no santuário do coração sem que Lhe abram a porta.

Macau. E de novo, que vemos à nossa volta?  Com tanta alcoviteirice, maledicência e calúnia, a atitude de Cristo quase parece ridícula e aqueles que o querem seguir passam por simplórios. O que vale é que Deus olha os corações. Está atento. Nem um só cabelo da nossa cabeça cai sem o Seu consentimento. No momento oportuno Deus se revelará e de um modo que ninguém pode imaginar.

O momento final  é a revelação de Cristo Resssuscitado,  no partir do pão. Ele é o Senhor. Aqueles que abrem de par em par as portas do seu coração encontram a Deus. Experimentam em si, depois da caminhada ao centro do seu ser, a presença do Homem-Deus, Jesus Cristo, que os conduz ao templo do Ser Transcendente, onde o Amor da Santíssima Trindade habita. Por isso podemos compreender a alegria dos«Discípulos de Emaús»: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?»

Por fim, Jesus Cristo, o Mestre Divino, pergunta-nos a cada um de nós, tal como a Pedro:«Tu amas-me…?»

Baixamos os olhos. Caímos imediatamente na conta que  em  nós, homens e mulheres do  terceiro milénio, existe essa enorme dificuldade de entrarmos  dentro de nós mesmos, de percorrer esse ‘Caminho Interior’, de fazer essa experiência de conhecer e penetrar nos meandros dolorosos da nossa Existência  e, pela  Verdade e Humildade,  chegar  à Liberdade,  ao Amor,  à Alegria de Viver. À Perfeição,  à Intimidade e à Santidade de Deus

Sim. Tanto a Experiência Humana como as Ciências do Comportamento, particularmente a Psicologia de Profundidade, assim como a  Espiritualidade nos afirmam,  peremptoriamente, hoje, que só na consciência de nós mesmos é que somos capazes  de  alcançar a Liberdade Interior, a Paz, e, por fim,  a  «Consolação» de Ser Homem ou Mulher criado à imagem e semelhança de Deus.»

 

Luís Sequeira. Jesuíta. Antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau.

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