O Sopro de Pak Tai: Poliglota e filólogo

Foto PAK TAI

Desde o início das viagens transoceânicas, e pelo menos até ao século XVIII, o português foi a língua franca entre os europeus e os povos das regiões costeiras da Ásia. Esse facto, contudo, não significa que os nossos avoengos tenham desdenhado a aprendizagem dos idiomas locais. Antes pelo contrário. Aplicavam-se nesse capítulo os religiosos – nacionais ou estrangeiros – das diferentes ordens patrocinadas pelo Padroado Português do Oriente, assumindo particular destaque os jesuítas, cuja estratégia missionária passava pela adaptação às diferentes culturas contactadas. Ora, como se sabe, era em Macau que esses homens se preparavam para tão árduas tarefas, embora muitas das vezes, nas inúmeras investigações históricas produzidas, se sonegue tão relevante informação.

Na Cochinchina, região que corresponde ao sul e à parte central do Vietname actual, os missionários não só foram pioneiros na aprendizagem da “fala do reino” como na alteração da sua morfologia, tornando-a de mais fácil aprendizagem. Merece nessa matéria especial menção o nome de Francisco de Pina, a quem se deve a introdução do alfabeto latino na língua local, que até então recorria aos caracteres chineses, embora no decurso de todo o período colonial francês se tenha consolidado a errônea ideia de que essa inovação se devera ao missionário francês Alexandre de Rhodes. Acontece que Pina era um nome praticamente desconhecido, enquanto Rhodes foi (e continua a ser) uma das figuras mais propaladas das missões no Oriente.

O equívoco prevaleceu durante décadas, e só as recentes investigações do filólogo francês Jacques Roland vieram repor a verdade. Após vários anos de pesquisa na biblioteca do Palácio da Ajuda, em Lisboa, em particular na colecção «Jesuítas na Ásia», Roland descobriu dois manuscritos importantes. Um deles, uma carta de sete páginas da autoria de Francisco de Pina e dirigida a Jerónimo Rodrigues, residente em Macau e Visitador das Missões do Japão e China. Datada de 1623, a referida missiva diz: «Estou ocupado a redigir um pequeno livro sobre o vocabulário e os acentos da língua vietnamita, e até comecei a escrever uma obra sobre a gramática. Pesquiso ainda sobre as histórias e os contos populares, e já encontrei alguém que me pode ajudar a transcrevê-los para português».

O outro documento é uma espécie de manual de aprendizagem de línguas intitulado «Manuductio ad linguam Tunckinensem».

Ambas essas obras, redigidas in loco pelo português, em 1632, ou seja, um ano antes da chegada de Alexandre de Rhodes à Cochinchina, provam que Pina foi o primeiro promotor da romanização da língua vietnamita.

Macau, uma vez mais, serviu de antecâmara preparatória, pois foi no território que Francisco de Pina deu continuidade aos estudos, iniciados em Goa. Mas não por muito tempo. Em 1614, ocorre a expulsão repentina e violenta dos missionários do Japão, impossibilitando assim o jesuíta de rumar a esse destino habitual. Como opção surge a Cochinchina, onde Pina chega no início de 1617, estabelecendo residência em Faifo (hoje Hoi An) – naquela época a cidade mais cosmopolita do reino – e em Cacham (hoje, Phuoc Kieu), uma aldeia nas proximidades, onde viria a desenvolver a maior parte de seu trabalho linguístico.

Faifo era um porto há muito frequentado pelos mercadores portugueses, e antes deles, pelos chineses e japoneses, como o comprovam as influências na arquitectura local.

Recordo-me bem das palavras do senhor Le Cheoung, proprietário de uma das muitas casas-museu locais, quando visitei essa cidade: «Toda a estrutura da casa mostra claramente a influência japonesa e chinesa, especialmente as vigas que se sobrepõem e suportam o telhado, um método de construção tipicamente japonês». Logo depois, chamando a atenção para a madeira do balcão que dava para o pátio, acrescentou: «As folhas de videira e cachos de uvas são elementos de importações europeias, muito provavelmente de origem portuguesa».

Terá sido numa casa similar que Francisco de Pina se empenhou na exigente e dificílima tarefa de simplificar uma língua que falava fluentemente e pela qual se apaixonara, devido aos contactos estreitos que sempre mantivera com a população local.

A sua morte ocorreu a 15 de Dezembro de 1625, ao largo da costa de Faifo. Pina estava a bordo de um barco que fora receber encomendas vindas de Macau, e que naufragou no decorrer de uma inesperada tempestade. Ironicamente, não muito longe dali, no delta do rio Mekong, por volta de 1560, naufragara também uma outra figura da nossa História, essa bem mais conhecida.

Pese o infortúnio de ambos, pode-se dizer que Camões acabou por ter bastante mais sorte do que Francisco de Pina. Não só salvou a vida, como também a obra que o tornaria imortal.

 

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa

 

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