O Sopro de Pak Tai: O Souza de Mombaça

 

1.Joaquim Magalhães de Castro

Consta que foram os membros de uma obscura seita árabe, especializada no comércio de especiarias, ouro e marfim, profundos conhecedores do Oriente, pois na Índia compravam panos e na Pérsia e na China – nessa antiga e cosmopolita Cantão – porcelanas, quem primeiro assentou arraiais na ilha de Mombaça, no já distante século X. O manuscrito que comprova o facto terá caído em poder dos portugueses que sobre essa cidade acometeram, em 1505, desforrando-se assim da hostil recepção do sultão local à fragilizada armada de Vasco da Gama que rumava a Índia e ali aportara sete anos antes, esfumando-se assim (pelos menos no espírito dos lusitanos) as loas tecidas pelo berbere Ibn Battuta, incansável andarilho que em 1331 pernoitara em Mombaça uma única vez e dela só tinha palavras generosas para repartir, destacando nos seus apontamentos de viagem a «honestidade, religiosidade e acolhimento» dos seus habitantes.

Devido à sua posição geográfica, exposta aos errantes ventos do Índico, quase obrigatório porto de abrigo e de comércio, Mombaça foi-se impregnando de um Oriente cuja intensidade ainda hoje se sente no constante odor a caril e a incenso e no caótico cenário magistralmente rematado pelos riquexós motorizados que driblam a turba de diferentes castas e crenças que vive, convive ou sobrevive nessa península outrora ínsula.

A impressão que sente o forasteiro ao chegar a Mombaça é a de que África ficou lá para trás, como se estivesse no limiar de um certo promontório asiático, não rumo a um continente mas face a um mar oceano, posto avançado onde se mesclam diversas etnias disseminadas entre uma população maioritariamente negra de onde se destacam os ocasionais massais, altos e esquálidos, de sandália e cajado, que vemos nas ruas e jardins, algo deslocados da paisagem e que nos lembram que estamos mesmo no Quénia. Não obstante, o grosso dos negócios está nas mãos dos árabes e dos guzarates, sem esquecer a gente com ascendência portuguesa como são exemplo Martin Fernandes e Joseph Souza, com quem estabeleci amizade, quase por acaso, pois para mim não passavam de simples quenianos a quem fora pedir uma informação. «Fernandes e Souza, ao seu dispor!», exclamou teatralmente um deles, frisando os respectivos apelidos antes mesmo de se inteirar das minhas origens. Poderia simplesmente ter dito que se chamavam Martin e Joseph, mas não: fez questão de soletrar o Fernandes e o Sousa, com perceptível orgulho, como quem exibia os galões cosidos na manga do uniforme. É claro que logo me convidou a sentar à mesa com eles e mandou vir mais uma Tusker bem gelada, até porque o sol abrasador convidava a uma trégua na longa caminhada dessa tarde.

O Fernandes, sorriso cativo, mais falador, apontou de imediato em direcção ao imponente fortaleza que se estava à nossa frente, o Forte de Jesus, dizendo: «Foi construído pelos portugueses!».

Pelos vistos, insatisfeitos com as represálias de Francisco de Almeida, os homens de Seiscentos voltariam a atacar a cidade, e com particular violência em 1528, sob o comando de Nuno da Cunha, que ordenou o arrasamento de todo aquele belo património observado e elogiado, ainda no século XV, por Pêro da Covilhã, antes de ter partido rumo às terras de Prestes João e por lá ter ficado. A tomada daquele entreposto suaíli, que na prática transformou o sultão local em súbdito da coroa de Portugal, foi das tarefas mais esforçadas da gesta a Oriente. E o Forte de Jesus de Mombaça constitui hoje a sua marca mais visível. O Forte de Jesus, e os amigos Fernandes e Souza, já agora. Este último, pacato mas bom observador, olho rasgado a denunciar uma ancestralidade mar do Sul da China, manteve-se calado durante grande parte da conversa, sorvendo goles da sua Tusker, e só depois de me ter ouvido e se ter inteirado acerca daquilo que me movia, revelou a sua história. Era neto de «um Souza de Hong Kong» que, no dealbar do século XX, partira num vapor inglês rumo à costa Oriental de África em busca de perspectivas de negócio. Sabia que sim, que a família Souza viera de uma terra chamado Macau, pois disso lhe falara a avô, africana de origem, mas nada mais poderia acrescentar a respeito do seu antepassado que se finara novo e sem concretizar o seu sonho. No entanto, Souza e o seu colega Fernandes nutriam – nem eles próprios sabiam bem porquê – forte afinidade com gente com quem partilhava laços genéticos e – porque não – culturais. E por isso se dispuseram a oferecer todo o apoio que necessitasse durante a minha estada. Ambos insistiam para que não esquecesse de visitar as ilhas de Lamu, a norte de Melinde, «um verdadeiro paraíso». Assegurava Souza, agora bem mais conversador, que se lá fosse «dificilmente terá vontade de partir». E eu bem sabia que ele tinha razão.

 

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa

IIM LOGOTIPO - 2015 (2)

 

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