Dançando o baile do medo

 

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Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

(Carlos Drummond de Andrade)

 

A crise político-social provocada pela operação Lava Jato, que pretende limpar, alegadamente, não só as mãos, mas a encorpada corrupção do cotidiano político do Brasil, tem levado muita gente a manifestar-se, revelando não apenas a compreensível e admirável revolta contra as práticas corruptas na política, como também aquela intoleranciazinha reprimida contra a inegável ascensão social de parte da sociedade brasileira, nem tão branca, nem tão fina, nem tão bem-educada… além da tentação antidemocrática.

A detenção do ex-presidente Lula da Silva, no passado dia 4 de março, a fim de que coercitivamente prestasse depoimento sobre as acusações de corrupção e lavagem de dinheiro e a descabida e ridícula possibilidade aventada pelo Governo  de nomear Lula para ministro da Casa Civil foram o estopim para reavivarem os protestos contrários à Presidência de Dilma Rousseff.

Surrealistas manifestações (convocadas, mobilizadas  e patrocinadas por quem?) marcaram o dia 13 de março. Além de alegres e bem-alimentados combatentes contra o Governo, “gente fina, elegante e sincera”,  era possível se notar, nas principais cidades capitais do Brasil, cães de companhia, pets fofos e vestidinhos, até maquilhados. Notável também que, talvez por ser domingo, era comum ver famílias unidas marchando atrás do trio elétrico: pai, mãe, filhos e a empregada (fardada, é claro! Deus os livre de uma baby sitter que não use o imaculado branco!).

Era também notável o preconceito de certos dizeres discriminatórios, prontamente postos em ressonância por certa mídia, resquícios do anticomunismo primário, do machismo, do racismo e do fascismo, atributo do tempo da história não muito longínqua do Brasil, iniciado com o Golpe de 64, em que o ex-presidente Lula da Silva e a atual presidenta Dilma Rousseff foram perseguidos.

Os monocromáticos dois milhões de pessoas de verde-amarelo-azul-e-branco exibiam pálidas ideologias, transmitidas em cartazes que clamavam “enDireita Brasil”,  “intervenção militar constitucional já” ou “imposto é roubo”. A não esquecer a Musa do Impeachment, em trajes, digamos, muito sumários.  É de chorar…

Envergonhada com tudo isso, um bocadinho assustada também, temo que a crise ideológica por que passa meu país resvale nalgum autoritarismo ou num certo trumpnismo, que parece estar em voga (haja vista a “Alternativa” que cresce na Alemanha).  É claro que deve ser louvável o fato de haver uma classe média genuinamente (será?) indignada com o estado de expropriação dos recursos do Brasil. A mesma classe média, por sinal, não tão indignada assim de o país constar entre os mais desiguais do planeta, estando ainda socialmente disfuncional e com  o grosso da renda concentrado nos mais ricos. É claro que todos (todos, mesmo!) os culpados devem ser julgados e condenados. É claro e legítimo querer viver num país que se orgulhe dos serviços da classe política. Mas o perigo está no obscurantismo que subjaz às manifestações. Temerário é o apelo autoritário ao comando, a tentação do pensamento único ou a condenações em praças públicas.

Sabendo todos ser estruturalmente corrupta a prática política brasileira, a pergunta que não vi ser respondida nos festejos carnavalescos foi a seguinte: a quem interessa uma investigação voltada apenas para os partidos da base do Governo, quando em tal julgamento certos acusadores não serão inocentes?

“Dançando o baile do medo”, não digo mais nada, só olho…

Márcia Souto

 

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