A angústia da nossa existência

 

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Aproxima-se a ‘Semana Santa’.

Tempo em que se celebra o mistério mais profundo da fé cristã : A Morte e a Ressurreição de Jesus Cristo para Salvação da Humanidade e da Criação. Aí, no Cristo nú, crucificado e morto e, aparentemente, vencido pelo Mal revela-se a fragilidade extrema do homem. No Senhor ressuscitado, cheio de Vida, está, ao contrário,  afirmação categórica de que as cadeias da Dor e da Angústia, da Morte e do Mal foram despedaçadas e destruídas. O ser humano, homem ou mulher, decaídos, outrora, pela entrada do Mal e do pecado no Mundo, conquistam, em Jesus Cristo ressuscitado, a capacidade, mais uma vez, de ‘ser como Deus´. Eles que foram criados ‘ à imagem e semelhança de Deus.’

Lê-se na narrativa da Paixão do Senhor : «Cheio de angústia, Jesus pôs-se a orar mais instantemente e o suor tornou-se-lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra.»

A Angústia faz parte da vida, embora poucos, com verdade, o admitam. É uma realidade que pertence à essência do ser humano. Toca o mais fundo do seu ser e do seu existir. Ela apresenta-se como a expressão vivíssima, cheia de sofrimento e dor, das nossas  necessidades intrínsecas   de Verdade (ser apreciado), de Amor (ser amado) e de Vida (estar seguro), quando não correspondidas.

Sem ela, por mais inacreditável que pareça, não crescemos. Experimentá-la é um convite à Liberdade. Desapega-nos de inúmeras prisões que nos tornam dependentes dos acontecimentos do passado. Destrói máscaras, figurinos e cenários com que a sociedade hodierna nos procura, primeiramente, enredar. Depois, subtilmente, deseja dominar e controlar. E, finalmente, escravizar.

Perante o futuro, ao desmascará-los e ao torná-los mais conscientes na nossa vida, a Angústia faz desmoronar, implacavelmente,  as nossas torres, os nossos baluartes e os nossos castelos, invadidos de medos, ansiedades pavorosas e fantasmas aterradores.

Surpreendentemente, através dela, podemos ir ainda mais longe.  Compreendemos também que a Angústia é ‘a porta’ e ‘o caminho’ estreitos de que, tempos a tempos, Jesus fala  como via necessária para a experiência de Deus. Dá acesso ao santuário íntimo do nosso ser, onde o humano e o divino se encontram. Aí mesmo,  ela nos chama, com veemência, a ir ao encontro de Jesus, o Homem-Deus e Ele, como frescura de manhã calma, nos fará despontar para horizontes novos no insondável Amor da Trindade Santíssima que tem a Sua morada na intimidade do nosso ser.  Alguém sintetizava este ‘Caminho Interior’ dizendo : ‘é como passar do fogo da Angústia ao fogo do Amor Divino.’

Entremos no coração do Senhor através da porta do nosso próprio. Fiel ao homem, Jesus Cristo, nos últimos momentos da Sua vida, desce aos recantos mais penosos da alma humana. Esmagado pela Angústia, sente «uma tristeza de morte» e entra em agonia.

Descobrimos que nessa Angústia Existêncial se manifestam três realidades intimamente relacionadas entre si que ajudam a sua compreensão. Primeira: Cristo é desprezado,  humilhado e morto na cruz como um malfeitor. Ele, o Filho de Deus. Deste modo, experimenta, no seu próprio corpo, a dor que todo ser humano experimenta quando aquela necessidade de ser apreciado, reconhecido e confirmado no seu valor e bondade é espezinhada:« Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem», dizia o Senhor, quando faziam troça d’Ele. É A Angústia da Verdade, do Valor, da Apreciação.

Segunda: Todo o homem ou mulher deseja ardentemente ser amado. Se tal não acontece, a rejeição provoca uma pena profundíssima, a Angústia do Amor. Jesus encarna essa experiênia chamando pelo « Pai» e clamando em voz alta: «Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?» O ódio à Sua pessoa era aterrador.

Terceira: Jesus vai oferecer «com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas aquele que o podia salvar da morte». Como todo o ser humano sente o pavor de morrer. O popularmente chamado ‘instinto de sobrevivência’ lança-o na Angústia da Vida.

Cristo vai, porém, mais longe ainda. Revela a raiz da Angústia Existêncial na sua tríplice constituição de Verdade, Amor e Vida. Ele, ao experimentar no seu corpo as consequências do pecado, pretende destruir o Mal, livrando, assim, o homem das garras do seu poder. Ele entra na Angústia do Amor Divino que é a aspiração dolorosa ao Amor de Deus, quando se experimenta em nós a fraqueza, a imperfeição e o pecado. «Tenho sede», diz Jesus. Sede do Amor de Deus.

A profundidade  angustiante desta experiência de Jesus Cristo,  que brota do Amor, é confirmada pelas «grossas gotas de sangue, que caíam na terra», que são levadas às últimas consequências na morte bárbara na Cruz.

Perante o sucedido, qual ‘o caminho’que nos conduz, em Cristo, à solução? Consciente e compreendendo bem o Seu estado, Jesus dirige, primeiramente, a Sua oração a Deus Pai a quem pede auxílio e conforto.Depois, recebe a consolação de um anjo e dos seus amigos íntimos. Finalmente, Ele deseja a presença do pequeno grupo de companheiros ou conhecidos como os apóstolos no horto ou as mulheres junto à Cruz.

Reparemos que, na experiência da Angústia, Jesus orienta-se, em primeiro lugar, para Deus. Depois,ao amigo íntimo. Só, por fim, vai buscar o pequeno grupo ou a comunidade. Com muitíssima frequência fazemos exactamente o oposto. Vamos desabafar ao grupo de amigos e conhecidos. Em seguida, entramos em intimidades com amigos próximos. E tão frequentemente, vamos a Deus só ao fim.

Não! Primeiro Deus… e só Ele.Então, saborearemos o Amor.

 

 

 

Luís Sequeira, Jesuíta. Antigo superior da Companhia de Jesus em Macau.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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