O sonho de Chico Rei

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Ao visitar o Estado de Minas Gerais há quem encontre nas serras do Curral, da Moeda, da Casa Branca e dos Macacos refúgios ideais para a prática de todo o tipo de desportos radicais – canoagem, rapel, bicicleta de montanha, escalada. Todavia, essa região brasileira além Mata Atlântica é reputada sobretudo pelo encanto das suas cidades históricas.

Ao rumar a Ouro Preto, a mais famosa de todas elas, confrontamo-nos inevitavelmente com a actividade mineira, o motor económico. Como escrevia Drummond de Andrade, no poema Confidência do Itabirano, esta terra é caracterizada «por noventa por cento de ferro nas calçadas e oitenta por cento de ferro nas almas». Os versos de Andrade brotaram do chão duro das jazidas desse metal. Itabira, a cidade onde nasceu, é hoje sede da Companhia Vale do Rio Doce, líder mundial da mineração e, também, responsável por uma série de desastres ambientais. Outro ilustre mineiro – o novelista Guimarães Rosa – costumava dizer que «Minas são várias», para melhor definir um Estado que devido à sua dimensão e variedade paisagística e sociocultural pode ser considerado um verdadeiro país. Comentava o escritor que «Minas principia de dentro para fora e do céu para o chão…». Na cidade onde nasceu, Cordisburgo, tudo está associado ao seu nome, sendo de realçar as jornadas eco literárias que combinam a sua obra – relembrada pelos contadores de histórias – com o meio ambiente. «O sertão está dentro da gente e em toda a parte», dizia Rosa.

Com o seu casario, as suas igrejas, ruas e becos, Ouro Preto apresenta-se como um decalque de uma vila portuguesa redesenhada no arvoredo subtropical do interior brasileiro. Fundada em 24 de Junho de 1698 por bandeirantes paulistas, foi a segunda capital de Minas Gerais, logo após Mariana, sua vizinha.

A cidade de Ouro Preto é, toda ela, uma obra de arte a céu aberto; uma amostra do barroco em todo o seu esplendor, de onde se destacam igrejas como a São Francisco de Assis da Penitência, no Largo de Coimbra, obra-prima do escultor António Francisco Lisboa, mais conhecido como «o Aleijadinho», ou a da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Largo do Rosário, a única onde os negros eram autorizados a entrar. E ao falarmos de negros falamos necessariamente de escravatura, o que nos leva ao sítio histórico que nos traz aqui: a Igreja de Santa Efigênia, ou Igreja de Santa Efigênia dos Pretos, ou ainda de Igreja de Nossa Senhora do Rosário do Alto da Cruz.

Magistralmente situada, no alto de um morro, no bairro do Padre Faria, com excelente vista para a cidade, a Igreja de Santa Efigênia, construída entre 1733 a 1785, consta que é fruto da iniciativa de um tal Chico Rei, escravo originário do Congo, que lhe deu corpo – demonstrando assim a sua devoção à santa – graças aos dividendos obtidos pela extração do ouro de uma mina arrendada por ele – a Mina da Encardideira – onde previamente obtivera os proventos necessários à obtenção da carta de alforria.

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No interior do templo, além dos habituais elementos barrocos que caracterizam os monumentos da região – talha dourada, pinturas (representados quatro doutores da Igreja, sendo um deles um Papa negro) e estatuária vária, alguma dela em pedra sabão, destacam-se, numa parede, dois curiosos painéis que os guias turísticos locais asseguram ter origem asiática. Um deles representa, aparentemente, cenas urbanas da cidade de Macau, e o outro, algumas pessoas inseridas numa paisagem chinesa. Na verdade, após uma observação mais cuidada nada de muito óbvio, no cerne da pintura, nos remete para Macau: tão-só se revelam, num e noutro caso, figuras humanas, homens e mulheres, portadoras de sombrinhas, esse sim um elemento oriental. Todavia, o tipo de traço e, acima de tudo, os elementos decorativos laterais de um vermelho muito vivo e em forma de dragão não deixam quaisquer dúvidas quanto à sua origem. É bem possível terem sido executadas por alguém de Macau ou das províncias vizinhas.

Apesar de ser matéria pouco estudada, o facto é que a influência chinesa no Brasil foi, desde o século XVI ao século XIX, uma constante. Não esqueçamos que o Brasil era ponto de passagem das armadas que iam e vinham da Índia, e, por extensão, e a partir da segunda metade do século XVI, de Macau. Nesse navios viajavam residentes dessa cidade que foram ficando no novo continente, e que a partir das urbes costeiras em expansão se foram embrenhando por um interior ainda por desbravar. Minas Gerais, com os seus recursos auríferos, foi com certeza destino bastante apetecível.

O legado chinês está aí (e em muitos outros pontos do país) patente em numerosos usos e costumes, em certos detalhes arquitectónicos e artísticos, em modos de «pensar, viver, agir e sentir», e «em certos requintes da civilização material», na expressão do investigador José Roberto Teixeira Leite, para quem a influência chinesa no Brasil assumiu «formas específicas e conotações inconfundíveis, que se traduziriam no devido tempo em hábitos, modos de viver e fazer que mesmo hoje longe estão de se terem esgotado, fundamente arraigados como se acham na alma nacional».

Joaquim Magalhães de Castro. Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa

 

IIM LOGOTIPO - 2015 (2)

 

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