Quando o espiritual é uma máscara

 

Prostitutes from mainland China wait for customers inside the shopping mall of a hotel in Macau

«Os escribas e os fariseus apresentaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério.» O episódio deste Domingo da Quaresma, o quinto, põe a nu e descreve, com maestria,  um esquema extremamente refinado de fuga à verdade e de cobertura da maldade que, mais do que aquilo que possamos imaginar,  se revela muito presente no nosso viver de cada dia.

Homem ou mulher são capazes de usar a falta, o moralmente errado e, portanto, aquilo que é merecedor de repreensão para encobrir motivações torpes. Com a capa de se preocupar pelo bem, esconde manhosamente no seu íntimo um “ninho de víboras”. Ousa apontar o dedo, humilhar publicamente e destruir sofregamente a reputação de uma outra pessoa. Ele, porém, não tem a coragem de olhar de frente para a sua própria malícia.

«Moisés, na Lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?» perguntaram os fariseus. É muito mais frequente do que se imagina a argumentação deste tipo. Quantos vão à experiência, à Palavra e à Lei de Deus para daí encontrarem razões para acusarem os outros, fazendo-se eles mesmos arautos da moralidade pública, da exemplaridade e da  perfeição !? «Sepulcros branqueados», dirá o Mestre em determinada altura.

Jesus Cristo não nega a gravidade do caso apresentado. Por isso diz, à despedida, «Vai e  não tornes a pecar.» Contudo, descobre falta de transparência nas atitudes daqueles que o interrogam. Detecta aquilo que eu, pessoalmente, chamo ‘máscara espiritual’. Pois, argumentando, muito devotamente, com a Sagrada Escritura, os homens, ditos, da Lei escondem-se sibilinamente por detrás da acusação à mulher acabrunhada pela sua queda degradante. É a máscara! Usam o espiritual para disfarçar motivos mais recônditos  que nada têm de espiritual. Antes pelo contrário, são bem pouco de Deus. Mas, ao Senhor ninguém engana. Ele penetra o mais profundo da inteligência humana. Conhece o santuário íntimo do coração. Não lhe escapam os planos do ser humano, homens ou mulheres.

De há muito que Cristo sabe que os judeus vivem roídos pela inveja. Desesperam raivosos contra Ele. Não têm paz. Não conseguem ver os ‘sinais’ da bondade encarnada de Deus. Consequentemente, as suas motivações estão longe de serem  puras. Assim, quando apresentam a pobre mulher, o evangelista São João afirma: «Falavam assim para Lhe armarem uma cilada e terem pretexto para O acusar.» Sabe-se igualmente que  «alguns deles queriam prendê-lo.» Mais. Perguntavam já em Jerusalém: «Não  é Este que procuram matar?»

Perante este quadro do ‘mundo interior’ dos seus interlocutores, Cristo deixa ‘as afeições desordenadas’ que os dominam seguirem o seu caminho. Elas são como areias movediças. São enganadoras. Confundem. Abrem-se aos  abismos cáusticos e angustiantes, onde falta a paz, a liberdade e o amor de Deus. Exclama apenas, dizendo: «Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra.» E permanece em silêncio. A consciência não se cala. Finalmente, «eles foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos».

O homem, a mulher da verdade perturba, desestabiliza, é incómodo como Jesus Cristo o foi. Tem olhar penetrante como o profeta. O seu coração permanece livre de atracções ilusórias. Dá-se sem esperar nada de volta. Só com Deus e n’Ele compreende  e ama tudo e todos.

Muitos, não todos, nos queixamos da degradação moral que avassala no território. Olhamos com algum sorriso ambíguo, ar de gozo, com desdém ou até desprezo as raparigas que servem em bares, clubes nocturnos, restaurantes chiques  e sofisticados, hotéis, casinos, saunas e massagens. São de Macau, vêm do Sul ou do Norte da China, da Tailândia, das Filipinas, do Vietname, até de Portugal, de França, de Inglaterra, do Canadá, dos Estados Unidos, da Austrália, da Rússia, do  Brasil, da Colômbia … Como é extensa a lista !

Primeiro pergunto a nós, comunidade cristã a viver em Macau, que fazemos? Admiráveis são aqueles que, persistentemente, ao longo de muitos anos e passo a passo, lutam  contra o tráfico e o comércio de jovens, sobretudo do sexo feminino. Também não podemos esquecer aqueles que, arduamente e sem grandes resultados,  fazem o seu máximo contra o flagelo da indústria da prostituição tão cheia de sangrentas e dolorosíssimas  feridas que, no mais profundo,  dilaceram  o coração e a alma de tantos  seres humanos,  seres criados ‘ à imagem e semelhança de Deus.’ E lembremos ainda aqueles que, sem serem  vistos ou reconhecidos, acompanham essas mulheres nos seus “vales de lágrimas” e nas suas terríveis ‘noites escuras’.

E os homens da Lei, da defesa dos interesses morais e sociais  que mais parecem não ter voz, afogados que estão nas suas artimanhas jurídicas e palavras falaciosas? As mulheres e os homens em autoridade que fazem ? E a polícia, em que  se conhecem ou se descobrem, de tempos a tempos, a existência de casos de conivência com redes de prostituição?

E os homens e mulheres de negócios, principalmente  os donos e gerentes de locais onde a mulher é explorada, drogada, violentada e violada?

É esta a Cidade do Nome de Deus?

Luís Sequeira

Jesuíta. Antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau.

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