O samurai e a espingarda

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Quando os portugueses chegaram à ilha de Tanegashima e introduziram a espingarda no Japão, a guerra passou a fazer-se por outros meios. Os meios e as regras de combate mudaram e os senhores feudais e os samurais tiveram de se adaptar a esta nova era. A espada parecia uma pluma à mercê de um tiro, o silêncio da morte foi destruído pelo ruído do medo. Para trás ficava a época áurea da aristocracia Heian, tão bem retratada em “The Tale of Genji”.

Exemplar e refinado, Genji era um comandante que pouco se preocupava com o Estado ou com os assuntos militares. Preocupava-se antes com os recitais de música, a poesia, o perfume, a caligrafia ou os assuntos amorosos. O fim do poder imperial Heian lembra um pouco a Europa após o colapso do Império Romano. Não tendo um exército, necessitava dos senhores da guerra que iam acabar com as insurreições. O poder do imperador passou então para os senhores da guerra, ou shoguns. A época medieval do Japão, controlada pelos grandes proprietários feudais e pelos pequenos Estados, chegou. Tudo isto me passou defronte dos olhos enquanto revia, há dias, o notável “Ran” de Akira Kurosawa. Até porque este é um dos filmes com uma das mais fortes ligações à literatura ocidental, no caso a “Rei Lear” de William Shakespeare.

Kurosawa coloca no Japão feudal do século XVI o nervoso conflito entre a autoridade e o desafio dentro de uma família. Não há, em “Ran”, os diálogos que tornam Shakespeare incontornável, mas as palavras transferem-se para o mundo interior das personagens e para o exterior da natureza. Tal como em Shakespeare, Kurosawa está extremamente interessado nas relações entre os seres humanos e os animais. Em “Rei Lear”, a caça é central. E em “Ran, também. Levantando questões sobre o lugar do homem na ordem natural, algo que fomos esquecendo quando trocámos o olhar com que acompanhávamos as estrelas e as estações, as fases da lua ou o comportamento dos animais, pela crença única na ciência e na capacidade do homem dominar tudo e todos como um Deus.

Compreende-se o fascínio de Kurosawa pelo poder da natureza: ele assistiu ao grande tremor de terra que assolou o Japão em Setembro de 1923. Sobre isso recordou, mais tarde: “Através do grande tremor de terra aprendi não apenas os poderes extraordinários da natureza mas as coisas extraordinárias guardadas nos corações humanos”. Os conflitos, são, como em Shakespeare, admirados a uma escala mais vasta, quase cósmica. Tudo isso se cruza com o outro grande tema de Kurosawa, compreensível numa sociedade de ritos como a japonesa. O conflito entre a autoridade e o desafio a ela é sempre latente. Os pais, o rei ou os senhores feudais são as figuras da autoridade que estão sempre presentes. Tal como os samurais, fruto da educação de Kurosawa nas artes marciais. Não deixa de ser curioso como em “Ran”, o mundo da natureza parece correr paralelamente aos dramas humanos, mas encarando-os de forma indiferente. Como se eles surgissem e terminassem e a natureza continuasse. Tudo tem a ver também com a diferença de sistemas que albergamos no Ocidente e no Oriente. Neste, o Budismo ou o Shintoismo colocam toda a existência do homem dentro do mundo natural, enquanto no Ocidente vemos a morte como uma remoção para outra esfera de existência. Em “Ran”, no entanto, a coragem individual do samurai soçobra perante a nova tecnologia da guerra. A flecha e o arco foram ultrapassados pelas novas armas de destruição, as espingardas. A destruição é agora mais completa e letal. Uma nova ordem busca-se então na natureza para o caos da guerra. E é aí que voltamos a um punhado de portugueses que, desembarcando numa remota ilha do Japão, alteraram as regras do caos que a guerra transporta. Num mundo em que a tempestade simboliza o caos natural em Shakespeare e o vento obriga ao recolhimento em Kurosawa. Na eterna luta entre a natureza e a tentativa dos homens criarem a sua própria ordem. Que nos levará, no limiar, à sua própria destruição.

Fernando Sobral. Escritor e jornalista. Autor de “O Segredo do Hidroavião” e “As Jóias de Goa”.

 

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