Joaquim António, o fotógrafo do Sião

FOTO para Crónica PAK TAI

A paixão pela arte fotográfica, pelo menos no que concerne alguns dos seus mais destacados membros (veja-se o actual monarca, Bhumibol, sempre de Canon a tiracolo), é característica suis generis da família real tailandesa, tradição que remonta à época do rei Chulalongkorn (1893-1910), «o grande reformador», responsável pela introdução do caminho-de-ferro naquele país. Davam-se naquela época os primeiros passos na fotografia pós-daguerreótipo e o Reino do Sião, sedento de modernidade, não queria ficar para trás. Chulalongkorn, aficionado da oitava arte, fazia questão de aparecer em público empunhando máquina fotográfica e tinha ao seu serviço um fotógrafo oficial, um tal J. António, cuja nacionalidade constituiu um mistério até há bem pouco tempo, sabendo-se agora que se trata de Joaquim António, nativo de Macau como comprovam estudos levados a cabo por Jorge Morbey, ex-Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Banguecoque, com uma obra sobre as famílias luso-siamesas no prelo. De acordo com este investigador – e pela informação que transmitiu a José Martins, antigo funcionário da Embaixada portuguesa em Banguecoque e aí residente de longa data, também autor de um blogue sobre a presença portuguesa na Tailândia, o qual consultei para escrever este texto –, Joaquim António terá nascido a 5 de Agosto de 1857, na freguesia da Sé, e era filho de Apolinário de Paula António e de Firmina Francisca do Rosário, ambos nascidos em Macau. O jovem Joaquim António terá frequentado o ensino básico no território, tendo posteriormente recebido formação técnico-profissional em Hong Kong, onde obteve o diploma de Construção de Obras Públicas e Minas e onde certamente terá trabalhado, como tantos outros macaenses, o que explica a sua fluência na língua inglesa e a «ousadia» de ter pedido (já na condição de residente no reino do Sião) patrocínio ao monarca siamês para a edição do «primeiro guia ilustrado de Banguecoque», tendo, para tal, enviado algumas provas tipográficas, «bem como uma pedido de acesso ao Rei para uma fotografia que serviria de frontispício», como nos recorda o investigador Miguel Castelo Branco, que, em 2011, no âmbito das celebrações dos 500 das relações luso-tailandesas, trouxe para o domínio público esta figura esquecida de Macau.

Pelos vistos, a ousadia do português deu proveitosos frutos, já que a obra viria a ser publicada em 1910, embora, anos antes, em finais de 1896, Joaquim António aparecesse já referenciado como «fotógrafo de Sua Majestade o Rei do Sião», estatuto que lhe permitiria abrir estúdio de fotografia, na rua Chalerm Krung (New Road), não muito distante do Consulado de Portugal. Datam dessa época alguns dos seus mais famosos retratos, que nos mostram o rei e demais membros da família real na inauguração do primeiro troço ferroviário, pois Joaquim António trabalhava nessa altura como «desenhador técnico no Departamento dos Caminhos-de-ferro». Todavia, a obra deste fotógrafo português caracteriza-se sobretudo pela caracterização da gente do povo a quem Joaquim António deu visibilidade e que seria recompensada com a atribuição de uma medalha de ouro na Exposição Francesa e Internacional de Hanói, em 1902, mostra definida como «uma bela colecção de fotografias que nos iniciam no charme da aldeia e dos campos siameses, dos tipos masculinos e femininos, interessantes pelo etnográfico, nos trabalhos empregues para a cultura do arroz, tão característico, mau grado as tendências progressivas de S. M. o Rei Chulalongkorn».

O lustre internacional não se ficaria por aí. Passados dois anos, expôs os seus retratos na Feira Mundial de Saint Louis (1904), onde foi de novo premiado, desta feita com uma medalha de prata pela «melhor colecção de paisagens do Sião e países vizinhos».

Em 1904, era apresentado ao público, finalmente, o tão almejado «The 1904 Traveller’s Guide to Bangkok and Siam», o primeiro guia turístico publicado no Sião, projecto que o levara à corte do rei.

Joaquim António, apesar do seu profissionalismo, raramente assinava as fotos, daí que muito do seu valioso espólio fotográfico tenha sido publicado inúmeras vezes sem os devidos créditos. Entre as imagens há uma de um condenado à pena capital com a legenda «An Old Style Execution», o que diz bem do relativo à vontade com que fotógrafo macaense circulava na corte siamesa.

Sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa e da sua congénere francesa, Joaquim António colaborava nos jornais locais (que começavam então a dar os primeiros passos) e os seus retratos seriam, vezes sem conta, reproduzidos nos postais ilustrados da época que seguiam de Banguecoque para as principais cidades do mundo, levando com eles as gentes e as vistas do Reino do Sião.

O pouco que se sabe da vida privada de Joaquim António não é nada animador. Ter-se-ia casado, em 1876, em Macau, com Francisca Michaela de Almeida Marques António, que, após quase duas décadas de internamento no Hospital de São Rafael, diagnosticada com demência, acabaria por falecer, em 1927.

Joaquim António morrera muito antes,a 28 de Dezembro de 1912, de ataque apoplético, na sua residência em Banguecoque, «já naturalizado siamês, como uma das mais aplaudidas figuras artísticas do país».

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e investigador da expansão portuguesa

IIM LOGOTIPO - 2015 (1)

 

 

 

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