Um contributo para a Macaulogia

 

1.Legenda Joaquim M.Castro

O início do derramamento de Macau pelo mundo, doravante matéria-prima deste espaço semanal – tendo como referência uma Macau no sentido lato da palavra, ou seja, uma Macau antes de o ser, enquanto entidade com autonomia política e geográfica –, poder-se-á localizar nas primeiras evasões dos povos das zonas costeiras do Império do Meio, sobretudo das províncias de Cantão e Fukien, cuja diáspora se iniciou há centenas, senão milhares de anos, pois tal mole humana era da mesma massa que engendrou os pescadores que acendiam pivetes no templo de A Ma, convocando dias de farta pesca e mar chão. Essa gente que ali rumava sazonalmente constitui, de algum modo, matriz primeva do “homo macaenses”. Seguindo tal ordem de ideias poderíamos também ir ao encontro das expedições do almirante Zheng He, com alguns dos membros da sua frota a legar comprovada descendência entre os ilhéus de Lamu e de Pate, ao largo do Quénia, curiosamente onde se miscigenariam também, um século depois, marinheiros portugueses com mulheres locais, tendo acontecido, quiçá, já nessa altura, o primeiro cruzamento luso-chinês, mas isso seria fugir demasiado ao intento da prosa e temática desejadas.

Claro que nesta abordagem será obrigatoriamente incorporada a cidade (e a província) de Cantão, potência dinástica dos Tang numa época de rotas abertas entre a China e o Oriente Médio, senhora de um dinâmico porto de mercancia frequentado por gente de díspares origens e crenças, muito antes de Macau ser uma miragem sequer.

Quanto à difusão do Sul da China pelo mundo, já nos séculos VII e VIII as crónicas árabes mencionavam a presença de famílias de mercadores de extracção sínica nas margens do Tigres e do Eufrates, e dois ou três séculos depois não faltam referências à sua presença por todo o Sudeste Asiático, já em pleno processo de caldeamento com as gentes locais, no reino de Champa e de Java, no de Samatra e no do Sião, em Camboja e em Malaca. Foi aí que os fomos encontrar, “os chinas”, nos primórdios do século XVI.

O próprio substrato da Macau “diasporizada” de matriz portuguesa, à qual, por razões óbvias, quero dar especial realce, em todo este processo, começa, pois, muito antes da fundação da cidade, em 1555. Começa nas ilhas de Lampacau, no Chincheu e, mais a norte, em Liampó, hoje Ningbo, essa tentativa frustrada de estabelecimento permanente de um entreposto português no litoral chinês que, não seria inteiramente incorrecto afirmar, esteve na génese daquela que entre nós passaria a ser conhecida como a Cidade do Santo Nome de Deus. A urbe da deusa dos mares que jamais se escusou ao convívio com adoradores de outras divindades para melhor se complementar, e solidificar. Assim, essa Macau de cunho taoista e cristão alargar-se-ia com a inclusão de povos das mais diferentes proveniências, indo simultaneamente plasmar-se no resto do mundo sem nunca deixar de ser portão de entrada e ancoradouro seguro. A par com Goa e Malaca, Macau integrava uma trilogia marítima asiática onde era obrigatório passar (ou até ficar) para depois voltar a partir. Naturalmente os sistemas governativos e as ordens religiosas desempenharão um papel crucial nos futuros enredos, pois deixaram-nos vasto e valioso manancial de registos manuscritos e impressos, mas também haverá lugar para os testemunhos dos aventureiros e comerciantes de toda a espécie e dos mais diversos berços.

A essência de Macau, fundamental no desenho económico e social da Ásia do Sul e do Oriente, depressa se extravasaria para outras partes do continente, e daí para o resto do mundo, impulsionada pelo poderoso sopro de Pak Tai, esse imperador do Norte elevado à condição de potestade taoista que em Macau o vento personifica e, por isso, tem direito a culto, altar e tecto com telhas verdes.

Não haverá qualquer critério cronológico ou geográfico. Tão só, factos e estórias. Que irão surgindo, em formato de crónica, entrevista ou mero apontamento, o importante é que, de algum modo, exista um qualquer vínculo a Macau, por mais ténue que seja.

Espero que este espaço contribua para uma maior divulgação da “macaulogia”, entendida como “conjunto dos estudos sobre Macau, assumindo a História um papel de relevo entre várias áreas onde se incluem, entre outras, a vertente cultural, social, política, económica ou religiosa”. Serve esta rubrica de pontapé de saída do almejado objectivo.

 

Joaquim Magalhães de Castro

Escritor e Investigador da História da Expansão Portuguesa

 

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