A Desgraça…

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«Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém?»

O Evangelho deste Terceiro Domingo da Quaresma coloca-nos perante uma realidade bastante dura, mas comum na nossa sociedade actual e sobre a qual os jornais quotidianos  propagam em grandes títulos e abundantes reportagens fotográficas. Refiro-me a esses acontecimentos inesperados da vida como atentados, acidentes, ataques de guerra ou guerrilha;  homens, mulheres  e crianças que, inocentes, morrem todos os dias de morte violenta.

Perante tais situações dramáticas,  olhar para os outros,  comparar e, por fim,  julgar ou fazer um juízo moral sobre as pessoas em causa, as vítimas, parece ser, segundo o texto evangélico, uma atitude frequente entre nós.  Contudo, o Mestre chama a atenção para o erro crasso dessas conclusões, quando questiona:  «Julgais que eram mais pecadores? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não».

O Senhor faz-nos cair na conta de que as vítimas são apanhadas de improviso, portanto, não conscientes do que se está a passar e, moralmente, inocentes.  Nunca se poderá dizer que são culpados de algo ou que foram castigadas pelos seus pecados.  Jesus apenas nos quer dizer que devemos estar, acima de tudo, preparados para toda e qualquer eventualidade nesta nossa existência que nos pode deixar diante da morte. Devemos estar preparados – de coração transparente e livre –  para ‘ o encontro com Deus’

Recordo aqui a dilacerante tragédia que as águas do Mar Mediterrâneo encobrem com as gentes do Médio Oriente e do Norte de África. Se por um lado, se impõe  a obrigação de procurar os culpados deste crime e dos responsáveis desta catástrofe, por outro lado, e ao mesmo tempo, impõem-se a missão de  libertar a todos de tanto sofrimento. Por outro, temos de crescer na compreensão do ‘mistério do sofrimento’, em Jesus Cristo que,  na sua nudez e pregado na cruz, dizia a um dos dois homens crucificados com Ele:« Hoje mesmo, estarás comigo no Paraíso». Perante a Dor e a Morte, crer na Ressurreição e na Vida Eterna é a resposta.

«E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou?»

Que desgraça!
           Peguemos o texto por outra perspectiva mais pessoal.  Acontecimentos como os que Jesus Cristo nos  refere acontecem com alguma frequência. É um trambolhão que se dá e magoamo-nos. Cai um objecto precioso que fica irremediavelmente destruído.  Por causa de um imprevisto ou por falta de visão de alguém um projecto vai por água abaixo. É um acidente. É uma doença. É  a morte de um ente querido. Que desgraça! Assim exclamamos, manifestando dor e desilusão pelo sucedido. Casos há em que a pessoa não recupera mais do facto. Perde o sentido da vida. Questiona Deus. Deus não está comigo, afirma. Parece castigo. Ele é injusto. Será que Ele realmente existe!?

Perante tais situações dolorosas, Jesus vem, uma vez mais, desafiar as atitudes habituais do ser humano. Convida-o, radicalmente,  a uma outra liberdade interior. Chama-o a purificar afectos e pensamentos que aprisionam, subjugam e não o deixam resplandecer ‘aos olhos de Deus e dos homens.’ As ‘desgraças’ são, paradoxalmente, o instrumento privilegiado de purificação,  um verdadeiro cadinho que nos torna em ‘ouro fino e precioso.’

‘O complexo de culpa’  é uma outra manifestação do comportamento humano muito comum, quando homem ou mulher se encontram em situações muito dolorosas, aterradoras, difíceis de compreender. Mas importa clarificar
à luz das palavras do Senhor. A vulgarmente chamada ‘desgraça’ não é , em princípio, sinónimo de ‘pecado’.  Porém, o psiquismo humano, em grande aflição, é capaz de o construir como se isso fosse a verdade, repetindo, obsessivamente, no íntimo: ‘É por minha causa que as coisas assim acontecem’. “Eu sou o culpado’. Escutemos as crianças quando passam  por essas terríveis experiências como  no Sudão, na Síria, no Afganistão…

 

Luís Sequeira, Jesuíta.

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