Há muitos chineses a querer aprender português?

Numa recente visita a Portugal, deparei com a enésima peça jornalística cujo destaque era “Há muitos chineses a querer aprender português” (Económico, 12 de Janeiro de 2016). O tema recorrente e a ainda mais recorrente justificação eram que para entrar nos países que falam português em África e no Brasil, muitos chineses querem aprender português. Joaquim Mourato, Presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, refere nessa peça a recente assinatura de um acordo com o Gabinete de Apoio ao Ensino Superior da RAEM, a parceria com o Instituto Politécnico de Macau, programas de intercâmbio para estudantes e docentes no sentido de tentar manter falantes de língua portuguesa em Macau, o que considera estratégico por Macau ser “a porta de entrada na Ásia”. Na mesma linha, referencia igualmente que há “centenas de estudantes chineses nos politécnicos a frequentar cursos em português”, porque isso lhes abre a porta dos mercados africanos que falam português e do mercado brasileiro.

Agora a realidade mundial tal como ela foi em 2015: o investimento chinês em África caiu 40 % no primeiro semestre do ano em relação ao mesmo período do ano anterior e há inclusive estimativas que apontam para uma queda global do investimento chinês a nível dos 84% (Quartz Africa Weekly Brief). Muito do crescimento económico do continente africano na última década tem dependido da venda de petróleo, minério de ferro, madeira, cobre e outras matérias-primas à China; como o país se orienta atualmente para uma economia mais centrada no consumo interno, irá necessitar menos destes recursos.

Por outro lado, nas suas recentes visitas à Arábia Saudita, Egito e Irão o Presidente Xi Jinping mencionou a “nova Rota da Seda”, que visa ligar a China e a Europa com a ajuda de infraestruturas financiadas pela China e as empresas chinesas já estão a construir estradas e portos para o efeito. Os laços económicos e o comércio bilateral entre China e Arábia Saudita têm aumentado e em 2015 o valor foi 230 vezes superior ao de 1990, altura em que estabeleceram relações diplomáticas pela primeira vez. Acresce que este desenvolvimento económico é apresentado também como a forma mais eficaz de reduzir os conflitos na região – ao expandir os seus laços comerciais e de investimento com o Médio Oriente, a China espera que o descontentamento e os conflitos se venham a dissipar gradualmente, argumento que certamente colhe a simpatia geral.

Se se pretender efetivamente levar a cabo uma política linguística consistente e não apenas evitar “fechar cursos ou instituições”, seria mais inteligente deixar de lado as ideias feitas e os chavões sobre a importância estratégica e económica da língua portuguesa e olhar em redor e além. O mundo muda a grande velocidade e as redes de interesses e de solidariedades institucionais acompanham essa mudança. Já em 2010 Maria Helena Mira Mateus alertava que “definir uma actuação nesta área não se compadece já, nem apenas, com as afirmações gerais que se encontram nos textos oficiais sobre a necessidade de expandir o conhecimento do português, de prestigiar a língua que falamos, de tomá-la como identificadora da nossa forma de estar no mundo, ou em outros aspectos igualmente vagos e pouco fundamentados. Falar hoje sobre política linguística não interessa se se limitar à exclusiva indicação de formas concretas de difusão da língua, sem se saber exactamente onde, como e para quê.”

Neste novo cenário que começa a delinear-se, a pergunta não é se há muitos chineses a querer aprender português, mas sim porque e para que é que os chineses hão de querer aprender português.

 

Ana Paula Dias. Doutoranda na Universidade Aberta. A autora escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

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