Tempo de tranformação

 

1.Luis Sequeira.jpgA comunidade cristã, em Macau, entrou já no tempo da Quaresma e, neste Segundo Domingo, lemos, no Evangelho, a passagem  referente à Transfiguração: «Jesus enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto, e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. Pedro e os companheiros, João e Tiago, viram a glória de Jesus.»

A Quaresma,  pelas palavras de Jesus Cristo, chama-nos, primeiramente,  à transformação do nosso coração, da nossa inteligência e das nossas acções. Do coração, pelos seus sentimento e afectos, tantas vezes, desordenados: inveja, peneiras e vaidades, orgulho,  desprezo,  agressividade, rancores e raivas. Da inteligência, por estar  tão cheia de critérios de vida dúbios, deformados e enganadores. Das atitudes ou actuações,  porque – vezes sem conta –  elas são menos correctas e tornam-se até mesmo  maldosas ou indignas.

A Transfiguração, num segundo momento,  pela experiência do mesmo Senhor Jesus, é como que a afirmação de que na nossa vida, a qualquer momento, podem ter lugar acontecimentos capazes de provocar transformações surpreendentes e fulgurantes do nosso ser, da nossa  personalidade e revelar as dimensões  mais perfeitas, mais belas e mais divinas  nosso ser, criado ‘à imagem e semelhança de Deus.’

Se olharmos  para o que se passa  na cena  política  mundial e que nos é apresentado pelas grandes cadeias de televisão, quase ficamos petreficados. Nas eleições presidenciais americanas,  declara-se, em debate público e a gritar, que foi mentira o argumento do presidente de então ‘das armas de destruição massiva’. Por outro lado, a diplomacia russa que defendia o ataque militar na Síria apenas para estabelecer o equilíbrio de poder entre as forças beligerantes, agora que estão todos sentados à mesa,  Moscovo não quer abandonar as armas, deixando muito obvio e claro os seus interesses geopolíticos e militares na região. Esta hipocrisia política, militar e económico-financeira continua!

A Humanidade está farta de palavras e de sofismas. O Homem e a Mulher de hoje clamam do fundo da sua angústia, do seu coração quase sem réstia de esperança,  por transparência e coerência.

Assim sendo, torna-se extremamente actual e indubitavelmente prioritário tomar a pedagogia  sugerida pela Liturgia Quaresmal. Somos, com insistência, convidados a entrar no íntimo de nós mesmos, porque é daí que sai o bem e o mal. É dos nossos sentimentos escondidos no profundo do coração, é dos nossos pensamentos sibilinos, tortuosos e mortíferos que, externamente,  ninguém vê, é das inclinações obsessivas, sem moral nem valor, que saem os crimes contra a Humanidade e a Criação.

Toda esta reflexão e meditação é também uma oração para que todos nós, homens e mulheres do século XXI, compreendamos que, sem a coragem e a audácia,  de percorrer «o Caminho Interior», aquele que nos leva ao mais profundo de nós mesmos, não conseguiremos encontrar «Caminhos de Liberdade e Salvação.» para o Mundo de hoje.

O outro aspecto  que o Evangelho deste Segundo Domingo da Quaresma nos  apresenta para consideração é, sem dúvida, a realidade da Cruz, nas suas duas vertentes : a Glória e a Morte.

No entanto, no chamado episódio da Transfiguração, é dado muito mais relevo ao momento de Glória que o Senhor Jesus Cristo experimentou.  Na verdade, a Transfiguração é pré-anúncio da Ressurreição.  Ele  deixou-se  ser visto  pelos seus discípulos mais íntimos –  Pedro, João e Tiago –  com a condição de só o revelarem depois da poderosa e misteriosa manifestação da Ressurreição .

Fala-se, muito frequentemente, «de levar a Cruz de cada dia»,  como Cristo a levou,  e  com ela se insiste na dimensão de Dor e Morte. Porém, somos muito parcos em falar de Vida e Glória. E, porque não proclamamos,  a sua  Vitória, como anuncia aquele famoso cântico ‘Vitória, o Cruz, tu reinarás.’ Alguém me comentava o assunto e dizia: ‘a Cruz é Palavra de Deus, mas Ressurreição é a Última Palavra.’

Tanto o exigente «Caminho Interior», de carácter mais pessoal, como o, por vezes, penoso  «levar a Cruz de cada dia», de maior consciência da nossa relação com os outros e com as circunstâncias que nos rodeiam,  precisam de ser enriquecidos  com o sentido da vida, da consolação e da alegria como frutos da Ressurreição.

 

Luís Sequeira, Jesuíta. Antigo Superior da Sociedade de Jesus em Macau

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