Xangai mítica

 

Shanghai Poster Art 01

Um dos posters que imortalizaram a irreverência das mulheres de Xangai quando a capital económica da China era a Paris do Oriente.

As fotografias antigas são como os velhos “posters”: são memórias de um passado que se recusa a desaparecer. São pilares de um tempo que, ciclicamente, nos volta a desafiar para os seus mistérios. Quando olho para uma foto colorida de Ruan Lingyu, a jovem actriz chinesa que se suicidou precocemente, não vejo a Greta Garbo do Oriente, como então foi recordada. Procuro encontrar a Xangai da década de 1930, cidade dos clubes de jazz onde o fumo dos cigarros escondia as traições amorosas, os gangsters de Du Yuesheng que controlavam o negócio do ópio na concessão francesa, a ponte cultural que se estabeleceu entre o Oriente e o Ocidente enquanto o sangue escorria nas esquinas. Xangai parecia a Paris do Oriente. Era, talvez, a Florença dos Bórgias com vestígios de Hollywood e recordações das dinastias do império chinês. Era o tempo de actrizes de cinema e de prostitutas russas, de magnatas sem alma e de sobreviventes que escondiam os seus idiomas de origem. Era talvez uma ópera onde todos se mascaravam em busca da sua própria identidade.

Estes anos, até à invasão japonesa, foram bordados a ouro. As imagens coloridas, em fotos e posters, das damas de Xangai, simbolizam esta época. Era um tempo romântico, idílico, onde o dinheiro escorria à velocidade com que se trocava de amantes e de aliados. Xangai deixara, há muito, de ser uma pequena cidade portuária. Após as guerras do ópio, as potências ocidentais ocuparam-na e impuseram a sua cultura. Hotéis, bancos, discotecas, grandes armazéns, domesticaram-na. A arquitectura ocidental confiscou-a. Xangai era uma ponte entre o Ocidente e o Oriente, um caldeirão de culturas e de ambições. Onde todos se poderiam queimar. Os “posters” de actrizes traziam recordações da velha China, da moda que os manchus tinham trazido das estepes para os palácios. Os longos “cheongsans”, ricos de seda e de peles, ficaram como identidade de uma era que se recusava a desaparecer. Era um elemento de distinção. As imagens traziam mulheres luminosas com roupas fascinantes, sapatos e sandálias distintas, cabelos arranjados, faces que pareciam marcadas por holofotes. Esses “posters”, impressos nas frenéticas tipografias de Xangai, tinham começado a ser feitos na década de 1910, quando nenhuma mulher respeitável posaria assim. Muitos dos mais antigos tinham fotos de homens disfarçados de mulheres, como era habitual na ópera chinesa. Mas, nesses anos fenéticos de Xangai, passaram a ser um símbolo da libertação das mulheres chinesas.

A ponte entre o desejo e a realidade era cruzada por todos os que se aventuraram nessa Xangai mítica dos anos de 1930. Era o tempo do “glamour” perfeito, aquilo que as sociedades mostram enquanto escondem o lixo nas vielas. A fantasia disfarçava-se de fotos silenciosas e ousadas. Tentadoras. Muitas delas eram mulheres de carne e sangue cujo nome desapareceu nas águas do velho porto. Muitas, mais conhecidas, como a lendária Butterfly Wu, a “singsong” perfeita, a popular actriz de Xangai, sofisticada e destemida, que também surgia na bela publicidade do tabaco ou dos produtos de beleza da época. Desafiadoras estas mulheres que deixaram o seu legado nas fotografias coloridas dessa época, são pedaços de uma época que acabou estilhaçada. Recordada por muitos, foi vista como detestável por outros. Mas hoje esses “posters”, verdadeiros ou falsificados, são ainda uma das grandes formas de perceber uma Xangai em busca do seu destino.

 

Fernando Sobral

Jornalista e escritor. É autor de “O Segredo do Hidroavião” e de “As Jóias de Goa”.

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