Descobrir a verdade através da escrita

Joe Tang

Escritor

Os residentes de Macau têm recentemente vestido a pele de Sherlock Holmes de tão perplexos que estão pelo caso de suicídio de uma alta funcionária do governo local.

No entanto, os seres humanos não têm particularmente uma boa memória e, depois de alguma conversa de café, o mais certo é que este assunto deixe as preocupações da maioria das pessoas, agora mais atentas aos preparativos do Natal e do Ano Novo. Relativamente à busca da verdade, talvez não sejamos tão persistentes e apaixonados quanto pensávamos, e isso lembra-me um livro que li e que se chama La Verité sur L’Affaire Harry Quebert.

O livro é escrito por Joel Dicker. Nascido nos anos 80, Dicker reside numa parte da Suiça onde se fala o francês. Embora sentisse já paixão pela escrita no início da juventude, esperou até aos 24 anos para publicar a sua primeira novela, Les Derniers Jours de nos Père, uma história passada durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, o que verdadeiramente trouxe o seu nome para a ribalta foi a publicação, em 2012, de La Verité sur L’Affaire Harry Quebert. O livro foi já traduzido em 37 línguas e publicado em 45 países.

Pergunta-se: o que há assim de tão especial em La Verité que criou todo este impacto? O conceito base é um livro de detectives, de ficção. Conta a história de um escritor de 28 anos chamado Marcus Goldman, que se tornou famoso com a publicação da sua primeira novela. No entanto, depois de receber adiantado o pagamento dos direitos pela publicação de uma segunda novela, Goldman fica bloqueado e não consegue escrever uma única linha. E é assim que decide pedir ajuda ao seu mentor, Harry Quebert, um gigante da literatura americana.

Quando Goldman se encontra escondido na pequena cidade onde vive o seu mentor e onde procura concentrar-se na escrita, descobre acidentalmente uma relação proibida entre Quebert e uma jovem de 15 anos chamada Nola Kellergan, que se encontra desaparecida há 33 anos. O mais surpreendente é que os restos mortais de Kellergan estão, afinal, enterrados no quintal de Quebert. No entanto, Goldman acredita firmemente na inocência do seu mentor e decide investigar o caso por si próprio, ao mesmo tempo que escreve o livro La Verité sur L’Affaire Harry Quebert, para assim fazer um registo do processo de investigação.

O livro é muito especial porque o autor introduz uma história noutra, com a ficção policial a incluir agora a história que o personagem está a escrever. Isto acaba por criar um livro dentro do livro, um mistério dentro de outro mistério. Diferentes enredos e pistas entrecruzam-se e dão origem a sucessivas reviravoltas.

O que mais me atrai nesta história é a representação que o autor faz de dois autores de diferentes gerações, um cheio de vida e de entusiasmo, o outro frágil e com um longo passado de sofrimento. Quebert ensinou a Goldman tudo o que sabia, incluindo as 31 teorias da escrita. O crescimento da amizade entre ambos é bem evidente ao longo de todo o processo de ensino e aprendizagem.

La Verité é uma história que usa o desaparecimento de uma pessoa há várias décadas como introdução. Através de dois livros e das histórias de dois escritores, trilha um complexo labirinto humano. Embora seja uma história policial, La Verité diz-nos que o essencial não é descobrir quem cometeu o crime, mas sim a eterna dúvida existencial: quando se enfrenta a omnipresença de uma humanidade negra e retorcida, como devemos proceder para evitar que nos tornemos simples acessórios?

 

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s