Quo Vadis, Macau?

Marco Carvalho

Depois de ter hostilizado as concessionárias de jogo, enxotado para outras paragens os grandes apostadores e obrigado o Governo e os agentes locais a descerem a custo do pedestal de facilidades em que se encontravam, eis que Pequim faz uma meiguice a Macau. Na quarta-feira – dia em que o Conselho de Estado mais do que triplicou a área sob jurisdição da Região Administrativa Especial de Macau – saiu o “El Gordo” ao território, ainda que os proveitos da terminação e da sorte grande com que Macau foi brindado não sejam imediatos e se prefigurem quase como que uma benesse às prestações. Quanto mais eficaz for a capacidade de gestão do Governo, maiores serão os proveitos que conseguirá retirar dos 85 quilómetros quadrados agora consignados a Macau e do que eventualmente lá poderá vir a ser construído.

Que não haja ilusões. Poucos serão os que não manifestam consciência absoluta de que as novas áreas marítimas deverão servir, talvez num futuro não muito distante, para novas gestas de conquista ao mar. A possibilidade de novos aterros não só se enuncia de forma clara nas disposições emanadas por Pequim, como também se faz acompanhar por uma indicação incisiva e absolutamente nevrálgica relativamente ao rumo do desenvolvimento que o Governo Central traçou para Macau. Ainda na ressaca de dez fulgurantes anos de crescimento, o território não digeriu por completo, com consciência plena, o xadrez das novas circunstâncias em que se movimentam concessionárias de jogo, empreendedores e investidores ou mesmo uma certa classe de residentes que se deixou incandescer pelo toque de Midas associado à indústria do jogo. Macau tem sido a viúva que se recusa a fazer o luto e conversa saudosamente com o prato vazio do marido, dia após dia plantado à sua frente.
Na quarta-feira, Pequim fez finalmente o velório à  indústria do jogo, liquidando de uma vez por todas as ilusões e os fantasmas que até ao início da semana embalavam o sector. Ao estipular que nos eventuais aterros que possam nascer nos 85 quilómetros de águas territoriais agora atribuídos ao território não nascerão novas valências de jogo, o Governo Central circunscreve o desenvolvimento da indústria dos casinos ao que já se conhece ou que poderia ser facilmente inferido: a expansão do sector não irá além dos limites do Cotai.
O que no início da década se prefiguraria como um contra-senso e um gesto quase de “haraquiri” é hoje – 16 anos volvidos sobre a transferência da administração entre Portugal e a República Popular da China – não apenas uma decisão sensata, mas também o que melhor serve o agastado desígnio da diversificação económica. Sem a inevitável cobiça dos barões do jogo, eventuais novas áreas conquistadas ao mar estarão “apenas” sujeitas à avidez e à sede de negócio dos viscondes do imobiliário, o que já não é coisa pouca. Ainda assim, se o Governo tiver capacidade para gerir as novas áreas tendo como prioridade a causa comum e ostentar lucidez suficiente para não repetir os erros do passado – como o que por estes dias tem estado no centro da novela “Pearl Horizon” – o alargamento da área de jurisprudência sob a alçada da RAEM poderá ser um balão de oxigénio para um território que está há muito vergado à selvajaria do imediato, onde impera a lógica do salve-se quem puder e o paradigma do lucro fácil prevalece.
Em domínio algum a síndrome da galinha dos ovos de ouro se faz sentir de forma tão perniciosa como no campo da estruturação urbana e da organização territorial. Excepção feita aos casinos, a forma mais fácil de se fazer dinheiro em Macau é pegar num casinhoto (traça chinesa e tijolo burro), mandá-lo ao chão e no seu lugar construir uma aberração de betão com três ou quatro andares. O processo repetiu-se dezenas, senão centenas de vezes ao longo dos últimos anos no Porto Interior, da Barra ao Fai Chi Kei, passando pelo Patane e pela Praia do Manduco, e deu azo a uma cidade disforme, erguida ao atropelo da memória e da história.
Se a atribuição das novas áreas marítimas (e a eventual construção de novos aterros) puder ser sinónimo de esperança para a cidade antiga que ainda resiste, então Pequim seja louvado. Se não, então que os deuses tenham piedade de Macau.

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