MÍSTICO e CRIATIVO

[Olhar ao redor]

Luís Sequeira

 

Neste caminho de preparação do Natal, festa do nascimento de Jesus, foi-nos apresentado, no Domingo passado, a figura de João Baptista. Neste, o quarto Domingo do Advento, a centralidade da narração é dada a Maria, Nossa Senhora.

Se João foi o Arauto da vinda do Senhor Jesus e chamado a proclamar a necessidade da conversão do coração para chegar ao conhecimento da verdade da mensagem do Reino de Deus, Nossa Senhora abre-nos a uma outra compreensão mais ampla e mais profunda dessa mesma mensagem. Ela afirma e confirma, com a sua própria vida, a união íntima da dimensão activa e contemplativa da pessoa humana. O místico e o criativo harmonizam-se no ser humano. É uma complementaridade intrínseca e estrutural da sua natureza.

Perante o acontecimento extraordinário ou o mistério da Encarnação, Deus feito homem – e muito concretamente considerando os momentos da concepção e do nascimento de Jesus – vimos Nossa Senhora que se recolhe no mais secreto de si mesma, aí onde Deus habita, à procura do entendimento daquilo que se está a passar: «Maria conservava isso e meditava tudo em seu coração». É aquele momento de contemplação que domina todas as nossas capacidades humanas e nos transporta para além do imediato e sensível e nos faz compreender algo de sobrenatural e mais divino.

No entanto, este estádio, chamemos-lhe, mais contemplativo ou místico de Maria, e nós com ela, pressupõe ou não exclui, tal como ela, o passar também, muito naturalmente, pela experiência do ‘medo no coração’, da ‘confusão na mente’ e, finalmente, não saber qual ‘a decisão’ a tomar. O texto de S. Lucas é bem claro nestes pormenores muito humanos que precedem o movimento para penetrar e compreender o divino.

Interessante é verificar, agora, num segundo instante, o que se segue àquele momento mais íntimo e mais ‘místico’. Diz o Evangelho deste Domingo:«Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha». Maria pôs-se em movimento para ajudar a sua prima Isabel que vivia lá nas regiões altas, na cidade de Judá.

Após o primeiro momento ‘místico’ de Maria, de compreensão, no seu coração, do plano de Deus sobre ela, aparece, de seguida, ‘o momento dinâmico e criativo.’ Ela sente um impulso forte de ajudar a prima já grávida de seis meses. Prima que também entra no grande plano de Deus, através de seu filho, João Baptista. Acreditemos ou não, mas é uma característica da nossa natureza humana, ter tanto a dimensão ‘estática e mística’ como a ‘dinâmica e criativa’. Poderemos, no entanto, dizer que, na realidade da vida do nosso quotidiano, uns são mais inclinados a viver o primeiro modelo, outros o segundo.

Contudo, desejo afirmar aqui aquilo que a História da Humanidade e, muito particularmente, a História da Igreja nos comprovam tão vigorosamente: os místicos são profundamente criativos. Isto, numa época que é a nossa, que tem tanta dificuldade a aceitar que o silêncio , o recolhimento, a reflexão e a oração são geradores de mulheres e homens, rapazes e raparigas, de visão de horizontes largos e rasgados, de espírito criativo e original, corajosos e ousados, capazes de transformar o mundo. Em Deus, nada é impossível para eles.

Recordemos Gandhi e Nelson Mandela. Francisco de Assis e Catarina de Sena. Inácio de Loiola e Teresa de Ávila não transformaram a Sociedade, a Igreja e o Mundo do seu tempo? E a diminuta Madre Teresa de Calcutá, grande mística, não desafiou ela a acção de reis e rainhas, presidentes e primeiros ministros, generais e marechais? Não questionou ela toda a sociedade actual com a sua própria vida para «o serviço dos pobres dos mais pobres»?

Leio ainda no texto evangélico algo de extrema actualidade sobre a qual não consigo furtar-me a uma pequena reflexão: «Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação (de Maria), o menino exaltou de alegria no meu seio (de Isabel)». O nosso corpo pode ser expressão de uma experiência espiritual. Aqui temos o bebé que salta no ventre materno de Isabel como sinal da presença amorosa de Deus. Numa passagem mais atrás é Zacarias, marido de Isabel, que percebe, de modo negativo, a acção de Deus ao ver-se incapacitado de falar, devido à sua incredulidade.

Aprendemos, também e cada vez com mais clareza, o que são as chamadas doenças psico-somáticas. Começamos a reconhecer que o corpo, o nosso físico pode apresentar-se, externamente, com dores, até visíveis e com cor, mas que, afinal, internamente, é uma outra coisa bem mais séria. Isso são manifestações inconscientes de verdadeiras ‘dores da alma’ e do foro psicológico.

O diálogo entre ‘o corpo’ e ‘o espírito’ toca todas as civilizações. Será que, nestes tempos que são os nossos, insistimos tanto no ‘corpo’, na sua beleza e na sua saúde, que esquecemos que a sua perfeição está quando encontramos o seu ‘espírito’ !? Amar em acção é serviço.

 

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