Gente que vem para o Frio

[Olho Mágico]

Márcia Souto

Meados de Dezembro… inescapavelmente, somos apanhados e obrigados, um pouco por todo o corpo, a olhar para os trezentos e tantos dias passados e, saudosos ou aliviados (ou um mix destes e doutros sentimentos), lembrar… Somos apanhados a olhar a contra-lógica de certas migrações, num tempo de aquecimento global e de desespero. Para onde vamos?

Em Lisboa, o frio chega vagarosamente, assim como a chuva que promete ainda mais melancolia. Em Minas Gerais, calor escaldante e o receio imorredouro de que o aproximar da época  das chuvas torne ainda mais dramática a situação dos “ribeirinhos” da lama da Samarco. A enxurrada, que transmigra e rompe as barragens, mata a terra e o mar, num crime ecológico sem precedentes, e, a cada instante, mata o ânimo nas gentes.  Esses meus pensamentos devem ser influenciados pela proximidade do Ano Novo (e, se calhar, pelo incontornável Feliz Ano Velho) e de  Janus  com seu olhar esquizofrénico… ou talvez seja a minha tentativa desesperada de  abstrair dos inúmeros encartes com “prendas incríveis” e, finalmente,  “despapainoelizar” (“despainatalizar”) o espírito, como propôs uma vez Frei Betto e que, numa longínqua aula, eu tentava explicar aos meus meninos e eles, surpreendendo-me, perceberam com rapidez desconcertante o que o neologismo queria dizer.

Mas dizia eu que o frio vai chegando, assim como chegam os primeiros refugiados em Portugal. Ainda são poucos, mesmo pouquinhos, mas representam uma grande esperança para os que sentem o calafrio, o medo e a fome do lado de lá de várias fronteiras da vida. Certamente estes homens, estas mulheres, estas crianças lembram-se do que os obrigou a partir paradoxalmente para o frio e sonham com um ano novo sinónimo de vida nova.

O mundo está a aquecer e a Cimeira do Clima de Paris terminou há dias. A despeito de algumas verdes desconfianças, alguns compromissos foram firmados para se travarem as mudanças climáticas. Os ganhos são incrementados e, aos poucos, aprende-se que as mudanças não acontecem de noite para o dia. Mas começa, antes que haja o degelo total, a ser a ponta do iceberg. E, com esta metáfora polar, oxalá tenham razão os eco-otimistas…

Enquanto isso, não os ricos magos (também paradoxalmente reis), mas Maria, grávida; e José, zeloso, procuram desesperadamente a estrela de Belém, alguma europa que os proteja de um mal que os bate à porta, de uma dúvida que os ameaça, de uma guerra que os põe em risco. A fome, omnipotente e omnipresente, insidiosa em tudo e em todos. A fome da dignidade, sobretudo. Afinal, desde os primórdios, a errância e a migração são marchas da e à fome, em sua diversa complexidade. Muitas vezes, retocada em geopolítica, quando não em ordem mundial. E a estrela aponta para o oeste frio que incrivelmente leva a uma deslocação improvável, contrariando as milenares regras das migrações, como a lembrar o terrível das calamidades (uma fome ulterior e inexorável da justiça, da equidade e da paz, para não dizer da animal sobrevivência) que obrigam seres humanos a deixar seu abrigo e fugir para o frio.

 

 

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