Preparai… O caminho do Senhor

[Olhar ao Redor]

Luís Sequeira

«No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe tetrarca da região da Itureia e Traconítide e Lisânias tetrarca de Abilene, no pontificado de Anás e Caifás, foi dirigida a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto…»

Assim começa o Evangelho do Segundo Domingo de Advento. Esta descrição, aparentemente, parece não passar de uma informação de enquadramento da figura de João Baptista. No entanto, na sua simplicidade e nudez, abre-nos as portas para a compreensão do mistério da Encarnação de Jesus Cristo entre os homens. Revela o lado humano daquilo que é uma manifestação primariamente divina. Por outras palavras, Jesus Cristo, o Filho de Deus – pela descida a esta terra que é a nossa – assumiu a natureza humana em tudo igual a nós, excepto o pecado.

Ele, o Filho de Deus, na sua humanidade, vai viver tudo aquilo que é próprio de um povo que lhe dá a raça, a história e a cultura e que se estabeleceu em Israel e não noutro canto do globo terrestre. Não deixa de ser judeu, nascido de Maria e José, e, muito concretamente, na cidadezinha de Belém . E chamar-se-á Jesus.

Mas, a essa dimensão social, histórica e cultural a que o texto sobre São João Baptista nos chama a atenção, junta-se uma outra, porventura, bem mais radical na compreensão da Encarnação de Jesus Cristo. O Senhor Jesus encarna, também e verdadeiramente, em Si próprio a dimensão pessoal de cada um de nós, ‘ser humano’, homem ou mulher, no seu processo de desenvolvimento, desde a concepção até à morte. Ele passou, tal como nós passamos ou passaremos, pela infância, adolescência, juventude, tempo de formação, maturidade e pela manifestação plena das suas capacidades no serviço dos outros, na missão. Ao fazê-lo – ao identificar-se com os diversos estádios do nosso desenvolvimento humano – ofereceu-nos a certeza de que seremos compreendidos e amados nos seus momentos críticos. Ele quebrou os grilhões da nossa fragilidade. Na verdade dos factos e acontecimentos abre-nos sempre um caminho de liberdade.

Por fim, há ainda aquela outra dimensão que, timidamente, ouso mencionar por causa da sua grandeza e profundidade de conteúdo e que só, por Deus, podemos entender um pouco. Refiro-me à dimensão espiritual e mística da nossa existência. O Senhor Jesus, por nós, igualmente experimentou “o mistério da cruz”, o mistério do sofrimento, da angústia e da morte que todos nós, humanos, somos chamados a enfrentar no decorrer da nossa existência. As ‘crises´ com as suas tristezas, vazios e mortes são inevitáveis. Das desconfianças, oposições e perseguições e tentativas de destruição não nos escapamos. Mas Ele, o Senhor poderoso, estará sempre connosco, em toda e qualquer circunstância da nossa vida terrena. Ele, o Cristo, enviado por Deus, na sua própria carne, experimentou a imperfeição e a fraqueza humanas, elas consequências do pecado. Certo e seguro, Ele o inocente, o perfeito, o santo de Deus libertar-nos-á de todo o Mal. A este propósito, recordemos S.Paulo que escreve de maneira que só ele é capaz: «Ele, apesar de sua condição divina, não fez alarde de ser igual a Deus, mas se esvaziou de si e tomou a condição de escravo, fazendo-se semelhante aos homens. E mostrando-se em figura humana, humilhou-se, tornou-se obediente até à morte, morte de cruz. Por isso Deus o exaltou no céu, na terra e no abismo. Jesus Cristo é o Senhor.»

O Senhor, pelo grande amor que nos tem, encarnou a história humana, a natureza humana e o coração humano. Percebemos ainda, pelo mesmo texto sagrado, que Ele também fala, pessoalmente, com cada um de nós: «foi dirigida a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto». Convida a todos a segui-Lo.

Mas quem O quer seguir ?

Perante a história da Igreja e, muito particularmente, da Igreja da China, a Diocese de Macau foi considerada “o farol” da Cristandade no Oriente, e chamada “a mãe” de tantas e tantas dioceses, espalhadas pelo continente asiático. O facto desafia, primeiramente, a nossa consciência “histórica”, é certo. Creio, no entanto, que seguir ou não seguir a Cristo e ser seu testemunha no mundo se deve colocar a um nível bastante mais pessoal. O assunto deve ser abordado ao nível da nossa própria consciência, da nossa história íntima. E neste sentido, caminhar até ao fundo de nós mesmos é fundamental. Sem “o caminho interior” não só não nos conhecemos a nós mesmos naquilo que temos de mais verdadeiro, mais belo e mais único e original como não vislumbramos as riquezas infinitas da verdade, do amor, da beleza e da santidade de Deus.

Eis a razão porque João Baptista clama vigorosamente:«Preparai o caminho do Senhor».

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