Meia dúzia de razões para permanecer atento

Marco Carvalho

A melhor maneira de celebrar o passado é honrar o futuro. Desde que foi pela primeira vez publicado, a 3 de Dezembro de 1991, o PONTO FINAL, mudou, como mudou também e de forma inequívoca, a Macau que lhe conforma a existência. O processo de mudança – social, económica e política – está longe de se configurar como uma tendência com fim anunciado. Pelo contrário. Dezasseis anos após a transferência de soberania entre Portugal e a República Popular da China, o zeitgeist político e o devir histórico de Macau assumem novas linguagens sobre as quais se alicerçam (ou escondem, consoante os interesses das forças e pulsões em acção) os desafios com que Macau se irá edificar e re-inventar, quem sabe por mais do que uma vez, até 2049. Ao PONTO FINAL, e de uma forma mais lata ao jornalismo em língua portuguesa que se faz no território, cabe a responsabilidade de olhar, de forma crítica, para os desafios que se colocam à RAEM e às suas gentes. Eis alguns dos mais prementes:

  1. A integração: Depois de ter dado carta branca à circulação de carros de Macau na ilha da Montanha, o Governo do Continente tem agora em mãos a análise de uma proposta que poderá conduzir à desburocratização do trânsito de pessoas nas fronteiras do território. O que à vista grossa se prefigura como uma boa ideia (Quem não gosta que lhe simplifiquem a vida?) esconde um arrátel de dúvidas e de interrogações de cariz jurídico que se revestem de uma importância essencial e a que importa dar resposta. No processo “simplex” de travessia de fronteiras, onde a análise do passaporte só será conduzida por uma ocasião, quem prevarique sob que ordenamento jurídico será julgado? De boas intenções, diz-se, está o inferno cheio e o silêncio dos agentes de Direito sobre a matéria é ensurdecedor.
  2. A saúde: As maiores evidências são, por vezes, as mais difíceis de vislumbrar. Há três anos, a agência Reuters causou comoção dentro e fora de portas por se ter lembrado de notar e de denunciar o óbvio. Na altura – antes ainda destes nossos negros dias do recuo das receitas – Macau tinha 36 casinos e um único hospital. Três anos depois, o número de empreendimentos de jogo cresceu qualquer coisita e o São Januário, vetusto e cronicamente vilipendiado, continua exemplar único, num território que – a julgar pelos valores das reservas financeiras de que dispõe – poderia oferecer os melhores serviços de saúde do mundo. Quem vive em Macau merece melhor. Melhor do que uma administração que se empenha mais em desmascarar notícias verdadeiras de jornais do que em garantir que uma infra-estrutura absolutamente essencial esteja concluída o mais brevemente possível.
  3. Os transportes: Havendo decência, quem – de uma forma ou de outra – está ou esteve envolvido nas obras do metro, devia ter pudor ou diligência suficientes para pregar os olhos no chão sempre que se fala da matéria. A empreitada já não é sequer um descalabro. É como que um ente maligno que o Governo carrega onerosamente aos ombros e o vai enterrando progressivamente num lodaçal de impotência. Indirectamente – e porque o projecto iria supostamente resolver a questão da mobilidade no território – o metro é responsável pelo laxismo a que foi votado o sistema de transportes públicos de Macau, dos táxi-carteiristas aos autocarros que circulam mal e a más horas. No fim é o ambiente e a qualidade de vida de quem cá reside que sofrem: Quem se predispõe a abrir mão de carro próprio quando a alternativa é o que bem se conhece?
  4. O ensino: Uma escola ou universidade que não ensina a pensar, que não fomenta o pensamento crítico e que não se prefigura a si mesma como um agente de mudança – seja social, seja política, seja cívica – dificilmente levará a bom porto a missão de preparar as novas gerações para um futuro que se prefigura cada vez mais exigente e passa ao lado do que deveria ser a sua principal preocupação: educar. Desde que se consumou a mudança de instalações da Universidade de Macau para a ilha da Montanha que se deixou de perceber que tipo de interesses serve verdadeiramente a maior das instituições de ensino superior do território. O caso do suposto desinvestimento no ensino da língua portuguesa, noticiado neste jornal, é o exemplo acabado de que a Universidade de Macau – à revelia das próprias indicações emanadas por Pequim – deixou de pertencer a Macau. Coloque-se um fim à hipocrisia. Se não formos necessariamente mais felizes, não andaremos seguramente tão incomodados.
  5. A economia: Ao fim de mais de uma década de dinheiro a jorros e de resultados de arromba, eis que os economistas se fazem finalmente necessários, ainda que de forma moderada. Tivesse a Grécia as dores de crescimento de que padece Macau e o Syriza, porventura, não teria sido eleito. Apesar de real, o desgaste económico é cómodo e deixa margem de manobra para um planeamento confortável do futuro. Para tal, o Governo tem, antes de mais, de substituir o chavão da diversificação por medidas concretas, quem sabe apostando naquilo que verdadeiramente torna Macau uma cidade diferente dos demais burgos da China. Outro passo essencial: livrar-se dos grilhões do mercado, o bicho papão – sem conduta, nem moral – que nos aprisiona a todos. Se é verdade que o mercado não tem que se deixar orientar pelos desígnios da moralidade, não deixa também de ser claro que o Executivo tem responsabilidades para com a população que governa. Uma delas é ser justo.
  6. A democracia: Porque não há verdadeiramente justiça sem assunção de responsabilidades e o segundo sistema murcha e fenece sempre que se diz que o sufrágio universal não nos serve a todos.
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