Reconstruir os momentos da cidade através da escrita

Joe Tang, autor e dramaturgo*

Acredito que os escritores podem ser, até a um determinado ponto, vistos como mágicos porque reconstroem um mundo nas mentes dos leitores através dos seus trabalhos. Seja esse mundo um beco, um país ou mesmo um momento histórico.
Através das suas canetas, os escritores conseguem congelar o tempo, o espaço, homens e objectos e dotá-los de carne e sangue, vida e sentido, assim como os podem preservar na imensidão da História. Recentemente, debateu-se o Hotel Estoril e o que me suscita a curiosidade no debate é: que histórias aconteceram naquele edifício? Há algumas histórias na literatura local sobre aquele edifício?
Os momentos mais marcantes na minha memória estão relacionados com um célebre combate de artes marciais entre Wu Kung-i e Chen Ke-fu, disputado na Piscina do Estoril a 17 de Janeiro de 1954. A luta tornou-se lendária porque terminou sem um vencedor ou um vencido, nem mesmo um empate. E, mais importante, o evento espoletou uma onda de criações relacionadas com o kung-fu no mundo literário chinês que se prolongaram por mais de meio século.
Há alguns dias, o colunista Tai A escreveu o artigo 誰高興拆掉愛都?

(que se pode traduzir de forma livre como: Quem se sente feliz por demolir o Estoril, que foi publicado no Macao Daily a 6 de Agosto de 2015) recordando que a unidade hoteleira apareceu nos filmes de Hong Kong durante as décadas de 50 e 60: “O Hotel Estoril apareceu no filme Eight Murderers enquanto o Ching Ming Festival (1962) deu destaque à boate Estoril…”
Esta sequência de memórias não só me fascina, como me faz lembrar da colecção The Magician on the Skywalk (Taiwan Summer Press 2012), do escritor de Taiwan, Wu Mingyi. A colecção retrata as vidas das pessoas que viveram no Zhonghua Mall [complexo de oito blocos de edifícios que compunham um destino popular de compras], em tempos um ex-líbris de Taipé e que foi demolido há mais de duas décadas. O entrelaçado de dezenas de histórias nesta colecção reconstrói, na imaginação dos leitores, o centro comercial já desaparecido.
O trabalho mais marcante desta colecção é “Liou Guang Sih Shuei “ (tradução não oficial: O Tempo é Como um Rio) sobre um morador chamado A-Ka que não tinha um desempenho académico brilhante como estudante, mas que era muito bom nos trabalhos manuais. Já em adulto, ele torna-se técnico na Industrial Light & Magic, fundada por George Lucas. Mais tarde, A-Ka regressou a Taiwan e tornou-se freelancer, aceitando encomendas de várias empresas e preparando modelos de diferentes objectos. No desenrolar da história, o narrador foi um dia convidado a visitar a viúva de A-Ka na casa em que moravam para a ajudar a organizar os objectos que ele tinha deixado: um deles era a miniatura do Guanghua Market que A-Ka tinha feito. A cena mais notável dá-se quando o narrador entra no quarto onde está a miniatura. A mulher de A-Ka desliga as luzes do quarto: “… Todas as luzes do Mercado podiam ser ligadas e, depois de acesas, o mercado parecia cheio de vida outra vez. Fiquei surpreendido pela emoção o que isso me causou. Uma luz de néon no topo do edifício estava a piscar da mesma forma como acontecia há 30 anos.”
Na história ficcional, A-Ka não reconstrói apenas o mercado, como também as memórias de Guanghua. Às vezes não consigo deixar de pensar em todos aqueles que trabalham duramente para escrever sobre Macau e que estão, na realidade, a fazer exactamente o mesmo que fez A-Ka.

*Ponto Final/Macau Closer

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