“Erguei-vos e levantai a cabeça”

[Olhar ao Redor]

Luís Sequeira

Começa a preparação do Natal.

Até pela diminuição dos presépios montados em espaços públicos ou nas montras, parece tornar-se bastante óbvio que a mensagem do nascimento de Jesus Cristo entre a população de Macau se apresenta como algo cada vez mais secundário. É dado, infelizmente, lugar prioritário e central a figuras completamente acessórias como o gordochudo do pai natal. As decorações não passam daquilo que são: decorações. Dão brilho à festa, mas não acrescentam nada à compreensão da verdade do amor de Deus para com a humanidade, revelado no frágil Menino Jesus. As árvores de Natal, por mais altas que sejam ou por melhor iluminadas que estejam, nada significam se não houver um esforço pessoal de interiorização do mistério da vida de Jesus. Se tal não suceder, elas aí ficam, inertes, no meio da praça.

O texto do Evangelho do 1.º Domingo do Advento coloca-nos perante a descrição da vinda triunfal de Jesus Cristo nos últimos tempos. Grande é o seu poder! Esplendorosa é a sua glória! Mas, como é uma linguagem muito simbólica, embora verdadeira, somos quase como que levados para longe da realidade tanto da vida de Jesus como da nossa própria. Que tem tudo isto a ver com o meu dia a dia? Perante tudo o que está a acontecer no mundo, esta é a afirmação de que – ao fim ao cabo – tanto precisamos de ouvir. Temos um Deus que é o Criador do Universo e o Senhor da História da Humanidade, revelado em Jesus Cristo, o Deus feito Homem: «Hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória… e possais livrar-vos de tudo o que vai acontecer e comparecer diante do Filho do homem.»

Neste contexto de triunfo e salvação de Jesus Cristo, sobre o Homem e o Universo, por mais incrível que pareça, o texto do Evangelista Lucas descreve situações que são as nossas, no momento actual.

Em primeiro lugar, é a questão dramática da harmonia da natureza a ser criminosamente destruída pelos estados e pelas multinacionais. Aí estão eles, os grandes responsáveis, a reunir-se, urgentemente, em Assembleia Geral de Chefes de Governo, em Paris. Meditemos com sinceridade e profundidade nas Palavras da Sagrada Escritura, deste Domingo: «Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. O rugido e a agitação do mar. As forças celestes serão abaladas.»

Os trágicos acontecimentos em França, no Mali, na Síria. A escalada da violência entre nós – os homens e as mulheres desta geração – torna-se, aflitivamente, a segunda questão que todos temos de enfrentar com coragem e virtude. Os acontecimentos actuais são, mais uma vez, descritos pelo texto evangélico:« Haverá na terra, angústias entre as nações… aterradas…os homens morrerão de pavor,na expectativa do que vai suceder ao universo.»

Que fazer?

Com uma perspicácia de nos deixar espantados e sem palavras, o Mestre Divino dá um conselho de quem conhece bem a natureza humana, sobretudo, quando ela está em grande angústia:«Tende cuidado convosco,

não suceda que os vossos corações se tornem pesados pela intemperança, a embriaguez e as preocupações da vida…»

Sim, isto é bem verdade. Para quem costuma acompanhar pessoas nos meandros mais profundos do coração e da alma, verifica essas tendências compulsivas, desordenadas e destruidores do ‘eu’.

Comer muito, obsessivamente e sem controlo, é uma maneira muito comum de encobrir a angústia. A embriaguez, o excesso do álcool, vai na mesma ordem de ideias. É capaz de ser mais evidente, porque tem efeitos mais imediatos e espectaculares. A terceira fuga à angústia, descrita no Evangelho, é ser dominado ou dominada pelas preocupações da vida. A obsessão pelo trabalho é uma sua manifestação. Este tema, particularmente, ligado ao tão apregoado ‘stress’ tem muito que se lhe diga. Tantas e inúmeras vezes ‘a angústia existencial’ está lá bem escondida.

O Senhor continua o seu ensinamento e afirma: «Vigiai e orai em todo o tempo, para que possais livrar-vos de tudo o que vai acontecer

De uma maneira construtiva, Ele apresenta-nos duas vias de solução. A primeira – ‘vigiai’ – a que chamaria ‘Reflexão’ E a segunda ‘Oração’, usando o seu próprio termo.

Somos chamados, primeiro de tudo, a usar as nossas capacidades humanas, inteligência, afectividade, vontade, imaginação, intuição, força. Há sempre que fazer ‘a reflexão’ sobre ‘a experiência’ para, depois, definir ‘a acção’.

A ‘oração’ é aquele momento em que, humildemente, nos pomos diante do Senhor apresentando o nosso trabalho e deixando a Ele o resto, pois n’Ele está todo o « poder e glória.»

 

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