olhar ao redor

[NESTE VALE DE LÁGRIMAS…]

Luís Sequeira

      Pais, mães, irmãos, irmãs, amigos choram os que foram massacrados naquela noite negra na Cidade das Luzes. Aquela horrenda tragédia! Em lágrimas, no segredo da sua casa, se desfaz aquela mãe que, embora não concordando com a acção do filho, proclama, com grande dor, que não pode deixar de o amar: « Ele é meu filho».

Neste Domingo, o último do Ano Litúrgico, ainda chocados pelos acontecimentos, somos chamados a celebrar a Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo.

Não nos conseguimos furtar a uma primeira sensação, por sinal até arrepiante, ao considerar as duas realidades tão contrastantes: a Vida Humana e a Palavra de Deus. Surgem como que em compartimentos estanques. Por um lado, a morte e a tristeza. Por outro, a glória e o poder.

Contudo, no Evangelho, Jesus surpreende-nos ao declarar: «O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue. Mas o meu reino não é daqui.»

O Senhor descarta, logo, a lógica da força, do contra-ataque, da retaliação, «dos meus guardas», polícias, militares, marines, brigadas especiais. Proclama bem claramente «o meu reino não é deste mundo». O seu poder é de outra ordem, com outras características, divino.

Neste mundo, os governos, com todas as suas instituições, e os cidadãos procuram soluções, desde as políticas às de prevenção, defesa ou ataque. Creio que o povo francês deu um grande exemplo de uma acção concertada, rápida e eficaz tanto a nível nacional como nas suas repercussões internacionais.

No entanto, direi, que o Mestre coloca a questão numa outra dimensão que só o divino é capaz de atingir. Deixa o humano ao humano. O sobrenatural, a Ele só pertence. Assim, primeiro, promete a Ressurreição e o Descanso eterno, depois do sofrimento, da dor e da própria morte, sobretudo aos inocentes, frágeis ou que sofrem violência. Segundo, assegura o Perdão e o Descanso eterno ao ladrão, ao bandido, ao criminoso, ao assassino. Recordemos as palavras do Senhor, na Cruz, ao ladrão arrependido: «Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.»

Se alargarmos os nossos horizontes à escala mundial, que vemos? Violência e brutalidade em todos os continentes. É aquele que, muito nordicamente, planeia matar dezenas de jovens. É aquele outro país, onde quase todos os meses, numa escola, liceu ou universidade há tiroteio. São aqueles países em que não há família que não tenha um asssassinato. E os ódios entre clãs e tribos e raças ? A pedofilia, o tráfico humano e a indústria do sexo é um cancro nas sociedades ditas mais desenvolvidas. Não falando já das violências das sociedades secretas e dos serviços secretos.

Toda esta violência faz pensar. Haverá razões mais profundas para estas e outras manifestações tão destruidoras do ser humano que nós acreditamos ‘ser criado à imagem e semelhança de Deus’?

Atrevo-me a perguntar: não estarão adormecidas as forças do mundo do nosso inconsciente, do nosso eu mais íntimo, pela superficialidade do nosso modo de viver actual e pela falta de capacidade de olhar interiormente a nós mesmos?

Já os filósofos do século XIX nos alertavam para esta questão existencial. O que é que se passa no mais secreto e recôndito da nossa alma? Soren Kierkegaard analisava ‘a angústia’. Poderei dizer que Martin Heidegger reflectia sobre ‘a ansiedade’ e ‘a melancolia’. Jean Paul Sartre tentava descrever ‘o aborrecimento’ do homem contemporâneo.

Há que ouvir os homens e as mulheres de profundidade e visão, sejam eles, escritores, filósofos ou santos. Eles nos ajudam a compreender a realidade e a avançar criativamente para o futuro. Hoje, no ser humano – homem ou mulher – existe, por um lado, uma grande ‘negatividade’ no seu coração que é preciso conhecer e transformar. Igualmente e por outro lado, percebe-se que existe nesse mesmo coração uma grande ‘aspiração’ ao mais espiritual, ao transcendente e à própria experiência de Deus, como concluía sabiamente Kierkegaard.

Ao fim e ao cabo, sem a experiência do ‘Caminho Interior’ não chegamos a descobrir e conhecer os tesouros do nosso ser e existir. Sócrates falava do ‘conhece-te a ti mesmo’. A humilde e discreta Madre Teresa aconselhava as suas irmãs mais novas a ‘pedir a luz ao Espírito Santo para vos conhecerdes a vós próprias.

Acrescentaria ainda que a questão da violência está intimamente ligada à Vida de Família, à Educação e ao Ambiente sócio-cultural e aos seus Valores

 

 

 

 

 

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