Como escolher uma universidade?

A opção sobre como orientar e investir na própria formação académica é talvez uma das mais importantes e decisivas. Dela depende todo um futuro profissional.

Jorge Godinho

O presente texto é a versão revista e ampliada de uma breve intervenção num colóquio de divulgação do Instituto Universitário Europeu de Florença junto de potenciais interessados, para o qual a organização me solicitou um curto testemunho. Surgiu assim o estímulo para passar ao papel a minha experiência pessoal e algumas ideias sobre formação superior que defendo há vários anos.

A formação universitária coloca os potenciais alunos perante a necessidade de tomar decisões difíceis, a começar pela escolha da Universidade, uma opção que se repete nos três graus académicos universitários: a licenciatura, o mestrado e o doutoramento. É claro que um jovem de 18 anos que entra no ensino universitário de modo algum pode ter uma visão cabal do que o espera e sobre como deverá desenvolver um percurso de muitos anos. Mas se ao iniciar uma licenciatura o aluno ainda nada sabe sobre o domínio científico que irá estudar, nos passos seguintes, ou seja, ao escolher onde desenvolver investigação de mestrado e de doutoramento, está já em condições de tomar uma decisão autónoma, plenamente informada.

Sobre esta matéria gostaria de afirmar uma tese de base: num mundo ideal não deveria ser possível obter os três graus académicos sempre na mesma Faculdade. A exposição a diferentes meios académicos seria necessária. É claro que na maior parte dos casos não há condições para que tal aconteça por razões perfeitamente legítimas de ordem económica, pessoal, familiar, profissional, geográfica ou outras. Há ainda a tendência natural para permanecer num meio que já é bem conhecido e com o qual se desenvolveu uma ligação emocional e “de escola”: para quase todos, a “minha” Faculdade é aquela onde a licenciatura foi obtida, e nela tendem a ficar. Mas não é errado tentar ampliar as perspectivas e navegar outras águas. Longe disso.

O meu testemunho é o de quem teve a felicidade de trilhar três meios académicos assaz diversos, devido a um conjunto de circunstâncias pessoais e profissionais voláteis e provavelmente irrepetíveis. Digo “felicidade” porque este encadeamento se deu de forma não inteiramente planeada.

Obtive a licenciatura na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Entre tantas outras, não esqueço as admiráveis aulas do Professor Jorge Miranda. A formação jurídica que me foi transmitida em Lisboa teve um cunho prático muito forte. E porque não? O Direito é uma ciência pragmática, que se destina a resolver com equilíbrio problemas concretos de pessoas reais.

Anos depois, no mestrado na Faculdade de Direito da Universidade de Macau, que tem uma forte ligação à Faculdade de Direito de Coimbra, tive o privilégio de ter aulas com vultos de que só conhecia os escritos, como os Professores Orlando de Carvalho ou Antunes Varela, para citar os que já não estão entre nós. Tive o prazer de ter como supervisor o Professor Costa Andrade, sobre quem me faltam as palavras de elogio. Pude então verdadeiramente entender quão diversa mas não menos interessante é a formação de Coimbra, de cunho mais teórico. Na realidade, não há nada mais prático do que uma boa teoria.

Em 2000, concretizando uma ideia antiga, ingressei no programa de doutoramento do Departamento de Direito do Instituto Universitário Europeu de Florença. Tive o prazer de ter como supervisor o Professor Jean-Victor Louis, um dos nomes mais célebres do direito europeu. Encontrei no Instituto exactamente o que os prospectos anunciavam: um ensino europeu, internacional, comparado, contextual e interdisciplinar de excelência. O Direito não se resume ao que está nos tratados internacionais, nas constituições e nos códigos e tem que ser visto no seu contexto político, económico e social.

Se hoje me perguntarem qual destes três elementos formativos foi o mais importante, não tenho uma resposta. Todos são fundamentais, mas nenhum “formatou” de modo fechado a minha maneira de encarar as questões jurídicas. Se não tivesse um ou dois deles, estaria menos preparado: teria menos perspectivas de abordagem dos problemas e um mais fraco entendimento das metodologias de trabalho. Considero que tive imensa fortuna, já que me foi dada a oportunidade de obter uma formação jurídica verdadeiramente completa. Mas, como resultado, não tenho uma Universidade que seja «a minha». O que não me preocupa particularmente: vejo com prazer que todas têm rankings muito elevados e em todas elas me sinto em casa.

Em geral, diria que a opção sobre como orientar e investir na própria formação académica é talvez uma das mais importantes e decisivas. Dela depende todo um futuro profissional. Creio que, podendo fazê-lo, o candidato deve procurar percorrer vários meios académicos: deve buscar o conhecimento onde ele está e alargar horizontes. Deve querer estudar nas melhores universidades e trabalhar com os melhores professores, mesmo que tal possa significar colocar-se sob uma pressão muito elevada num ambiente à partida desconhecido.

De um ponto de vista mais prático é fundamental que estejam reunidas várias condições de base, que se aplicam a quaisquer estudos universitários, a começar por seriedade e dedicação. E, em todo o caso, como nada na vida é perfeito, pode haver preços a pagar por trilhar um caminho diversificado.

Em primeiro lugar, tem de haver uma efectiva disponibilidade pessoal para estar numa Universidade situada noutra cidade ou noutro país pelo tempo necessário, normalmente vários anos. Se o candidato pensa andar em deslocações constantes, passando o mínimo de tempo possível nessa cidade, sem estabilizar e sem verdadeiramente viver o ambiente académico, ou pensa fazer várias coisas ao mesmo tempo, creio que não há seriedade.

Em segundo lugar, não basta estar fisicamente na cidade. No tempo actual, em virtude da facilidade das telecomunicações, muitos investigadores trabalham a maior parte do tempo em casa. Continuo a achar que há que estar na Universidade todos os dias. É lá que estão reunidas as condições ideais de trabalho, é lá que o supervisor, os professores, os outros investigadores, os professores visitantes, os colegas de outros departamentos ou outras faculdades, e tantos outros, podem ser encontrados. Refiro-me em especial às bibliotecas, que devem ser o local de trabalho durante os anos necessários à conclusão de uma tese e que, para mim, são a sede de qualquer trabalho de investigação.

The last but not the least, o fundamental, que quase seria desnecessário mencionar: deve haver uma ideia muito clara sobre qual é a área em que se pretende trabalhar. Não vale a pena iniciar estudos aprofundados, nem devem ser admitidos candidatos, onde só exista uma intuição vaga ou preliminar de qual é efectivamente a investigação que se pretende levar a cabo. É necessário ter ideias sólidas, claras, exequíveis e pertinentes.

É evidente que uma vida académica movimentada tem custos e implica uma logística complexa e outros preços pessoais ou profissionais, que podem eventualmente ser altos. Um mestrado ou um doutoramento numa Universidade diferente da de origem é um investimento com alguns riscos, mas apesar de tudo inteiramente justificado. Como tantas importantes decisões da vida, esta são escolhas individuais e solitárias, que só se fazem uma vez.

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