A TEMPESTADE

[Poeira das Estrelas]

Filinto Elísio

1. Não são ingénuas e inconsequentes as minhas perguntas. Agora que os dados estão lançados, seja pois pela metáfora de se mexer na colmeia, aguardam-se respostas (se possível, plausíveis e que satisfaçam). O estado de guerra é, em si próprio, um estado de mediocridade, paradoxalmente anti-Voltaire, dirás. Um estado da barbárie, onde subjaza, racionalizado e à mão cheia, o ódio. A estranha e tenebrosa euforia da morte.

2. A burocracia, o sistema e a máquina inexorável que julgam e condenam o cidadão. O revolto do mar, o redemoinho do vento e o turvo do céu, sinais de que se desperta o Leviatão. O estado de quase vendável, qual inferno na terra, quando se intima K, n’ O Processo, de Kafka. Reponho o livro na estante e ponho-me a pensar em Jorge Luis Borges a engendrar, criativo e profuso, a Biblioteca de Babel. Penso, logo desisto, sem filosofar demasiado, no porquê de se ter incendiado a Biblioteca de Alexandria. Nada decifro de todo a parábola, mas há fumo incessante no meu pensamento.

3. Os atos terroristas em Paris, tal como o terrorismo que ocorre globalmente, merecem repúdio de todos quantos anseiam (e lutam) por um mundo melhor. O turbilhão dos acontecimentos, bem como a profusão das posições, obrigam a uma consequente nota. Pessoalmente, não me alinho às posições pela rede social contra a solidariedade para com as vítimas em Paris, lá porque outros casos hediondos (e aqueles em África, especialmente) não polarizarem atenções devidas da opinião pública mundial. Ainda há dias, os radicais fizeram um genocídio no Norte da Nigéria. É preciso identificar e denunciar a barbárie, o terror como forma de ser e estar na vida, em qualquer tempo e/ou lugar. Entrementes, legítimo que cada um dê mais atenção ao estrondo que lhe perturbe em mais proximidade, senão em mais clara vizinhança. Sem desvios de Humanidade, naturalmente, já que o mundo é nossa casa comum.

4. Dois outros fatos trágicos (diria, dantescos) prenderam também a minha atenção particular. O primeiro a ver com a situação humanitária que se vive nalguns países do Corno de África, onde a conjugação da seca, da escassez dos alimentos e da guerra deixa 20 milhões de pessoas necessitadas de ajuda alimentar urgente. Como se depreende, a fome é mais do que a falta de comida, mas um problema dos Direitos Humanos e uma injustiça extrema. E o segundo, a ver com o colapso (negligente e danoso) de duas barragens em Mariana (Minas Gerais, Brasil), mais precisamente no complexo de Alegria, pertencentes a multinacionais, que, para além da avalanche de lama de 62 milhões de metros cúbicos em ‘rejeitos’, de soterrar povoações e contaminar os rios Gualaxo do Norte, do Carmo e Doce, comprometerá toda a vida marinha numa grande parte do litoral brasileiro. Não serão estes danos ambientais imensuráveis e irreversíveis Crimes contra a Humanidade?

5. William Shakespeare escrevia, na peça “Tempestade”, que “misery acquaints a man with strange bedfellows”. Parece que, também entre nós, Trinculo e Caliban (este tão atormentado como aquele), protegem-se do vendaval sob a mesma manta. A questão que faz o drama não será exatamente a fúria do tempo, mas a perceção com que os dois se acomodam como “estranhos companheiros de cama” nestes históricos dias de alguma travessia. Fico, horas esquecidas, a magicar o diálogo entre Trinculo e Caliban, mais seus respetivos superegos, enquanto a plateia, nós afinal, sequiosa da chuva sobre as ilhas, é testemunha deste momento transitivo. E de pouca poesia, diga-se de passagem.

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