Visto do Tibre

[Entre pecado e corrupção]

Aurelio Porfiri

Antes de mais, peço-vos perdão se o título desta crónica vos parecer demasiado catastrófico, como o brado de um velho pregador vindo directamente da Idade Média e pedindo a conversão de uma cidade pecaminosa. Peço-vos que me acompanhem por um momento e compreenderão que o meu artigo é bem mais do que isso. Nem se arroga ao direito de se deixar orientar por alguma pulsão católica: o apelo que aqui deixo, deixo-o aos homens e mulheres de boa vontade (sei que as minhas palavras podem ser enganadoras). Digo-vos que não é um artigo de orientação católica, ainda que tenha por ponto de partida um líder católico, porventura o mais importante: o papa Francisco. Parece-me, no entanto, que as palavras dele podem também falar ao coração de não católicos, de ateus, de budistas, de muçulmanos, de taoistas, de mercantilistas e de outros que tais. Não procurem por mercantilistas no dicionário porque tive a honra de inventar esta palavra para definir aqueles que têm o negócio como crença e religião. Conheço muitos.

Há dois anos, a 11 de Novembro de 2013, na Eucaristia que celebrou na residência de Santa Marta, onde optou por morar, o Papa Francisco disse: “Onde há mentira, o Espírito Santo não está presente. Esta é a diferença entre um pecador e um homem que é corrupto. Quem leva uma vida dupla é corrupto, ao passo que alguém que peca gostaria de não pecar, mas ou é fraco ou encontra-se numa condição a que não consegue dar resposta e por isso procura o Senhor e pede para ser perdoado. O Senhor ama quem assim age, acompanha-o, permanece com ele. Devemos dizer, todos os que aqui nos encontramos: pecador sim, corrupto não”. Pecador sim, corrupto não.

Devo dizer que esta distinção feita pelo papa Francisco cria muitos problemas. O primeiro, e mais importante, é o de que o pecado, dada a sua própria natureza, também fora o pecador a esconder-se e a viver uma vida dupla. Se alguém rouba, se envolve em casos de natureza sexual ou apresenta um grande apetite por dinheiro e por poder, não vai fazer alarido disso em plena praça pública.

Vi, por isso, as suas palavras com uma outra perspectiva. A minha interpretação das palavras do Papa é: o pecado (visto aqui como um desvio aos códigos sociais e morais e, por isso, sem uma conotação religiosa) é parte da condição humana. Somos todos fracos e desviámo-nos com frequência dos códigos morais que nos são impostos pela nossa sociedade e pela nossa religião. Se vivemos em sociedades pobres, os pecados relacionados com a luta a que a pobreza obriga prevalecerão. Se vivemos numa sociedade rica, os pecados pelos quais enveredamos estão ligados à ideia de omnipotência associada ao dinheiro.

Um dos últimos filmes de Martin Scorsese, com Leonardo DiCaprio no principal papel – “O Lobo de Wall Street” – conta a história de um corretor bolsista (encarnado no grande ecrã por Leonardo DiCaprio) que faz do sexo e do abuso de cocaína parte integral do seu quotidiano. O filme não é uma fantasia e este tipo de comportamento não está presente apenas em Wall Street, mas pode ser encontrado em qualquer lado onde abunde dinheiro. Este tipo de comportamento é corrupto ou é pecaminoso? Do meu ponto de vista, alguém é corrupto quando se vende a si mesmo a algo ou a alguém para satisfazer o seu próprio egoísmo. Um pecador (lembre-se o leitor que não estou a falar de um ponto de vista religioso, mesmo que recorra a palavras que tecnicamente se reportam à religião) é uma pessoa normal, com maior ou menor fraqueza.

Somos todos pecadores. Um pecador sabe ser um pecador e sabe que o seu comportamento não é aceitável. Pode sempre voltar atrás. Mantém por completo o domínio da sua própria consciência. Um corrupto vende-se a si mesmo. Não pode voltar atrás, porque não há forma de voltar atrás: o único caminho é para a frente, mesmo que se faça à custa do respeito pela vida das outras pessoas. Esta pessoa vive uma vida normal, mas também uma vida que o extravasa – “uma vida dupla” – uma vida que deixou de estar sob controlo, mas que está nas mãos de alguém que ele decidiu servir. É uma pessoa que existe para colmatar necessidades ou desejos que pouco acrescentam à sua vida. De facto, a palavra “corrupto” tem origem no latim “corrumpere” que significa “romper com”. A própria etimologia introduz uma dissociação entre o que a pessoa é e a vida que a pessoa leva. Os pecadores não rompem com nada. Apenas tropeçam e falham, por vezes com demasiada frequência. Mas eles estão conscientes disso. Os corruptos não estão, porque vivem uma espécie de êxtase divino invertido (do grego “fora de ti mesmo”), vivendo num paraíso de ganância. Todas as cidades do mundo, de certa forma, são pecadoras. A Humanidade é pecadora. A questão que vos deixo é: A nossa cidade é pecadora ou corrupta? A resposta a esta pergunta vai ao encontro do que o espírito de Macau verdadeiramente é.

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