Pancho Guedes 1925 + 90 = 2015

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[Arquitectura foi / é arte, também na fachada principal do Hotel Estoril]

Adalberto Tenreiro/ Arquitecto

Pancho. Mulato ao cruzar as culturas africana com a europeia, ao passar ainda criança – dois anos – em S. Tomé, ao crescer e ter o apogeu de obra construída em Moçambique.

Mais que mulato – palavra muçulmana do norte de África usada em Portugal – foi crioulo, no sentido de ter estudado na cultura de emigrantes e cidadãos anglófonos da África do Sul, onde teve professores com obra construída de muita qualidade na própria África do Sul.

Casado com inglesa, foi reconhecido e construiu amizades com progressistas arquitectos ingleses. Construiu com clientes ingleses, que investiam em Moçambique a partir da África do Sul e esteve, por isso, um pouco afastado do viver e governar dos portugueses em Moçambique, mas também com a vantagem de conseguir projectar longe dos espartilhos demasiado técnicos da cultura arquitectónica inglesa. Em contrapartida, divulgou nas edições de arquitectura do Reino Unido obras dos arquitectos Távora e do jovem Siza Vieira, quando no mundo Portugal não era falado por estar fechado nesse tempo salazarista.

Misturou artes: pintou, esculpiu, desenhou, foi gráfico. Nas viagens que efectuou pelo mundo visitou arquitectura misturada com arte e prática de artes dos seus contemporâneos, entre muitos: Corbusier, Távora, talvez Keil do Amaral e mulher Maria Keil.

As artes interligarem-se traz Pancho ao Macau de hoje e dos anos sessenta. Merece referência a imagem de mosaicos do italiano Acconci inserida na fachada do Hotel Estoril, projectado pelo euroasiático arquitecto Alvarez, de Hong Kong.

Aproveito para partilhar o desejo de que a principal fachada do Hotel Estoril continue na companhia das fachadas Palladianas localizadas no lado oposto na praça do Tap Siac, onde os respectivos interiores foram demolidos e aí construídas arquitecturas novas. E, também, a fachada e edifício moderno, quando teve espaço livre para ser inserido o Centro de Saúde, pelo arquitecto Carlos Marreiros. Memória de sistema idêntico a continuar a acontecer na Av. Almeida Ribeiro e em tanta outra Macau, incluindo a primordial fachada da Igreja de São Paulo.

Contra a minha simpatia pela preservação da fachada principal, cito amigos que referem a necessidade de proporcionar maior criatividade, livre da fachada, ao mestre Siza Vieira no seu projecto para este generoso bloco urbano que inclui a Piscina Municipal. Contraponho o prazer de, na cidade do Porto, ao visitarmos o Museu de Serralves (1991-99), ser-nos dada a criatividade da nova porta desenhada por Siza, localizada ao lado da original entrada neo-clássica na vasta quinta onde se insere o novo museu. Contraponho também a surpresa de, ao deambular pelas árvores, descobrirmos e explorarmos as belas Art Deco casa e capela do seu último proprietário.

Também com memórias contraditórias pode-se referir que há oito a dez anos esteve aprovado o projecto da nova escola portuguesa para este local, pelo arquitecto Vicente Bravo, a ser implantada só no terreno onde se localiza o Hotel Estoril. Presume-se que incluía a demolição da principal fachada. O projecto nunca foi divulgado e não me lembro de ter existido diálogo público acerca do futuro da memória do Hotel Estoril.

Em contra tempo à citada fachada do século XVI localizada na Rua de São Paulo, vivemos no século XXI quando o Hotel Estoril e a sua fachada com mosaicos do Acconci, são memória do primeiro Casino de três das maiores companhias de Casinos em Macau, para além de todos os recentes grandes edifícios com salas de jogo e Hotéis.

Também relacionado com Macau pode-se referir o percurso paralelo entre Pancho e o asiático arquitecto Manuel Vicente. “Chinês”, chamava-lhe Pancho em conversa. Manuel Vicente estudou arquitectura em Portugal, onde criou afinidades que lhe permitiram ter edifícios importantes, também aí construídos, apesar de anticorpos, em parte dos gostos arquitectónicos aos quais as influências de outras culturas que não as europeias e algumas americanas eram e são recebidas com dificuldade.

Pancho, só nos anos 80 construiu uma casa própria ao regressar a Portugal. Tinha saído aos três anos de idade.

Não conheci Pancho Guedes. Quando foi cooperante em Moçambique nos anos oitenta, um irmão meu visitou espaços construídos por Pancho Guedes e penso que conversaram uma vez. O Fernando saiu de Moçambique pintor amador, em processo criativo semelhante e também inspirado pela obra de Guedes, ao viver a mesma mistura de ser educado com a cultura portuguesa e viver a obra de pintores, escultores, escritores e música africanos.

A curiosidade gerada pelo primeiro olhar de fotos dos seus edifícios ficou a fazer parte do grupo das imagens e desenhos em livros onde passei mais tempo a coscuvilhar todos os recantos e encantos.

Estou a desenhar edifício com espaços talvez influenciados pela arte de Pancho, mas de certeza com estas características descritas em 2003 por Pancho acerca da sua casa em Maputo: “Tem agora 50 anos. Levou imenso tempo a pôr de pé, pois nós éramos também os clientes. O Leão era nosso, e de forma alguma faríamos compromissos.”.

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