Bagagem de Mão

[ESCOLHER A LÍNGUA]

Sara Figueiredo Costa

Não sabia se devia aprender mandarim, cedendo a uma certa ideia de homogeneização linguística que me desagrada tanto, ou tentar o cantonês, sabendo que isso me impediria de comunicar em boa parte do território chinês, se um dia puder visitar outros locais. A primeira escolha era mais fácil, garantiam-me amigos que já passaram por ambas as aprendizagens. Eu persistia: o cantonês é a língua que se fala em Macau, é essa que quero aprender.

Vivi um ano em Santiago de Compostela, quinze anos atrás, e sei bem quais as implicações socio-linguísticas da imposição de um idioma. Numa tarde invernosa, em passeio pela Corunha, encontrei uma velha loja com boinas na montra. Entrei e descobri que a loja era, afinal, uma pequena oficina familiar, onde um senhor de muita idade ainda dominava uma máquina de cortar fazendas grossas, dando-lhes a roda necessária para cada boina. Falámos, eu em galego – que é um português a soar mais antigo, quase medieval, sem grandes diferenças relativamente ao português que ainda se fala no Minho ou em Trás os Montes – ele em castelhano. O sotaque fez-me desconfiar que o castelhano não era a sua língua habitual e perguntei-lhe se usava sempre esse idioma. Envergonhado, confessou-me que não, que a sua língua de origem era o galego, mas que o pai foi insistindo para que nunca o falasse fora de casa, porque “o galego é a língua dos labregos”. Naquela tarde tive uma aula prática de sociolinguística que nenhum manual me poderia oferecer, e pelas palavras daquele homem passaram séculos de discriminação, de políticas governamentais destinadas a homogeneizar as línguas de Espanha (que era una e indivisível, nas palavras de um ditador de má memória que não morria de amores por línguas minoritárias), de preconceitos transmitidos entre classes e vontades de ultrapassar as fronteiras dessas classes. Claro que o tempo passou e algo se alterou no mapa social, mas o preconceito permaneceu, com a ajuda sempre prestável dos vários governos centrais, a venderem a ideia de um bilinguismo harmónico enquanto faziam tudo para que o monolinguismo triunfasse.

Tudo isto se passou na Galiza, a muitos quilómetros de Macau, mas desde a primeira vez que visitei o território e sobre ele fui sabendo alguma coisa, o cantonês foi a língua que quis aprender. Infelizmente, nunca consegui mais do que dizer ‘obrigada’ e ‘olá’, sendo que passei a evitar o ‘olá’ quando, ao entrar em qualquer sítio, percebi que a resposta a esta saudação era uma torrente de frases que assumiam que eu percebia a língua… Fico-me pelo obrigada, que gera sempre respostas de agrado sincero, daquelas que não precisam de idioma para se fazerem traduzir.

Três anos passados sobre essa primeira visita, Macau já não é o sítio onde um dia aterrei para cobrir um festival literário. Trabalho para este jornal, que é de Macau, tenho aqui amigos de quem gosto muito, vou conhecendo ruas e espaços e sendo reconhecida como cliente habitual, ainda que sazonal, numa ou duas lojas de sopa de fitas. Não faz sentido continuar sem saber nada de chinês. Então, que chinês escolher? O cantonês, claro. Decisão firme até ao momento da desistência: não há cursos de cantonês em Lisboa e todos os contactos que fui fazendo no sentido de encontrar alguém que ensinasse a língua (e que passaram por donos de restaurantes e mercearias, sempre a sugerirem-me que arranjasse namoro ou casamento com alguém que falasse cantonês e os meus problemas de aprendizagem desapareciam…) foram falhados. Pronto, vou aprender mandarim. Se a coisa correr bem, pode ser que mais tarde consiga passar para o cantonês.

Por agora, tenho com que me entreter. Quatro tons. Em cada aula, a versão cacofónica de uma ópera de quinta categoria. Sei contar até dez, cumprimentar, dizer adeus e mais umas quantas palavras soltas. Para duas aulas, não está mal. O maior problema: ficar quieta enquanto “canto” as vogais. É que os tons tornam-se mais fáceis de produzir com a ajuda de uma mão maestrina, ou de uma cabeça bamboleante, ou até de um movimento de tronco para baixo e para cima. É tudo involuntário, e tudo ridículo. Se algum dia vier a falar mandarim, tenho a certeza que o farei abanando a cabeça como aquelas bonecos que certos motoristas gostam de colar no tabelier do carro e isso desagrada-me quase tanto como não saber falar cantonês.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s