QUE EU VEJA…

[Olhar ao Redor]

Luís Sequeira

É dramática a situação de Bartimeu, o cego apresentado no Evangelho do próximo Domingo, dia 25 de Outubro, o Trigésimo do Ano Litúrgico. Na sua grande aflição, grita, com insistência, a pedir ajuda: « Jesus,tem piedade de mim.» Mas, muitos dos que estavam ao lado repreendiam-no para que se calasse. Ao perceber que Jesus estava disposto a encontrá-lo, ele atirou com a capa da vergonha, deu um salto e foi ter com o Senhor e, cheio de confiança, pediu-lhe : « Mestre, que eu veja.»

Sentir o incómodo daquele que grita, daquele que chora, daquele que nos toca de mãos sujas e que vem atrás de nós, sucede vezes sem conta. De igual modo, experimentar o desconforto ou mesmo a repugnância pela presença do pobre, do necessitado, do que não tem nada, do ferido ou do moribundo … é uma situação bastante bem mais comum entre nós do que aquilo que queremos admitir. Não é por acaso que até o Mestre, numa outra circunstância, chama a atenção para o facto. Aquela parábola do Bom Samaritano que nos dão a conhecer o escriba e o sacerdote que se afastam do homem assaltado pelos ladrões, escondidos entre os trilhos da montanha e que o deixaram meio morto, na berma da estrada, é um exemplo elucidadativo dessa atitude. Como é frequente, na nossa sociedade actual, encontrar esse cruel «fazer que não vê».

«Mestre, que eu veja» é a resposta, vigorosa e decidida, do cego de Jericó. Mas esta deverá ser, muito certamente, também a nossa própria súplica. Enquanto membros da comunidade humana universal e chamados a ser responsáveis pela gerência correcta da natureza e do cosmos precisamos, primeiramente, de saber «ver» com objectividade o que se passa ao redor de cada um de nós como pessoas, comunidades, países ou nações. Na verdade, há que «ver», provavelmente, com outros olhos o que se passa à nossa volta.

É salutar constatar que cresce a consciência, entre mulheres e homens do nosso tempo, de que nos estamos a tornar cada vez mais egocêntricos, para não dizer, egoístas nas atitudes mais básicas da nossa existência. A necessidade compulsiva do consumo é flagrante: comer, beber, vestir à moda, gozar, comprar um novo telemóvel ou uma aparelhagem electrónica. A liberdade interior – acompanhada de simplicidade de vida e frugalidade tornam-se – cada vez mais, uma exigência prioritária do nosso existir neste mundo

Não esquecer: o clamor do ventre da Mãe Terra continua a ser dilacerante. A nossa sociedade actual prossegue, farisaicamente, nesse seu cruel «fazer que não vê»!

Num segundo momento, o texto do Evangelho dominical parece querer levar-nos para mais além do simples ser capaz de «ver». Temos necessidade, agora, de mulheres e homens de «visão». Mulheres e homens «de olhar penetrante» à maneira dos profetas do Antigo Testamento. Pessoas como aqueles que, na história da humanidade, foram instrumentos de transformação. Aqueles que com suas vidas e pensamento conseguiram abrir a humanidade a novos horizontes de entendimento do que é ‘ser homem, ser mulher’ e ‘ser homem, ser mulher neste mundo’, criado por Deus.

Aqui podemos incluir todos aqueles grandes pensadores e filósofos, políticos, mestres e santos que encontramos em todas as civilizações, culturas e religiões. Estando nós na China não poderemos nós mencionar Confúcio e Lao Tze ? Num contexto mais ocidental, não podemos esquecer a pleiade de pensadores e filósofos greco-latinos, no princípio da formação da Europa: São Bento, São Bernardo e Santa Catarina de Sena na construção da unidade e da consciência da Europa. Santo Inácio de Loiola, S.Francisco Xavier e Teresa de Ávila trazem uma espiritualidade e uma dinâmica de acção próprias para os Descobrimentos. No século XIX, Dom Bosco e Teresa de Lisieux enfrentam a modernidade e dão resposta tanto a questões sociais como espirituais. Martin Luther King e Thomas Merton desafiam radicalmente a América. Gandhi, o homem da Liberdade, da Paz e da Mística abre a India ao mundo. Finalmente, João XXIII e João Paulo II fazem chegar à Igreja uma nova ‘Primavera.’

Mas o texto de São Marcos pode fazer-nos chegar ainda mais longe, a propósito do «ver», especialmente quando combinado com uma das « Bem-aventuranças » do Evangelho de S. Mateus, quando Jesus Cristo proclama: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.»

O homem tem a capacidade de «ver» as coisas, as pessoas e os acontecimentos da vida «em Deus» ou «como Deus». O homem, a criatura humana, está aberta ao divino como o divino inunda e pode transformar substancialmente, o humano.

Mas, a transparência ou a pureza interior é absolutamente fundamental e necessária. Direi mesmo: é a única via capaz de nos dispor a «ver a Deus.»

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