Uma moral desmoralizada

[Visto do Tibre]

Aurelio Porfiri

O Sínodo continuou, durante a última semana, a discutir temas que a todos dizem respeito, de uma ou de outra forma. Importa dizer que o frenesim mediático (dinamizado por revelações e escândalos imprevistos) deu uma valiosa ajuda no que toca à amplificação do impacto do Sínodo junto dos jornais e de plataformas mediáticas de natureza variada. O povo – mesmo aquele que se diz fiel e praticante – vive e movimenta-se muitas vezes num panorama moral que é muito diferente daquele que a moral católica professa. Muitas sondagens e inquéritos de rua deixaram bem claro que o posicionamento face à moral sexual e também a determinados aspectos da vida familiar no âmbito da percepção comum não estão certamente em sintonia com os ensinamentos do magistério católico.

Seria bom que o magistério e a doutrina da Igreja adoptassem princípios que abrissem as portas da realização pessoal a todos quantos não têm capacidade de se concretizarem na perfeição cristã. Seria também, e por outro lado, justo que o mesmo magistério da doutrina cristã predispusesse de instrumentos pastorais para ir ao encontro dos muitíssimos que caem ou que estão expostos às tentações que se alimentam da fraqueza humana. Seria bom se o magistério católico não tivesse , ele próprio, a tentação de as justificar.

Creio que o Papa Francisco não tenciona relaxar os costumes e as posições da Igreja, mas procura – pura e simplesmente – encarar de frente a realidade e governar os destinos da Igreja num contexto no qual o cristianismo não é já sinónimo de uma maioria, quer a nível social, quer a nível cultural.

O próprio Pontífice enfrenta os seus próprios problemas no que toca à forma como lidera a Igreja e aos esforços para moralizar o clero. Não bastasse o escândalo do Monsenhor que se revelou homossexual, nos últimos dias também veio à baila a questão dos encontros proibidos nas instalações dos padres carmelitas, em Roma. Em suma, não é fácil apregoar a moral quando os exemplos que nos chegam das forças moralizadoras não são assim tão límpidos e cristalinos. E o problema não é só o sexo. É também o estilo de vida.

É difícil reivindicar um estilo de vida modesto a famílias que se confrontam já, quotidianamente, com problemas de sobrevivência, numa Europa martirizada por impostos e por problemas sérios e concretos. Para quem vive em apartamentos minúsculos, com contas para pagar, que efeitos tem a mensagem de prelados que vivem sozinhos, confortavelmente, em apartamentos que poucas famílias podem custear? A reforma interna da Igreja – parece-me – tem um pendor tão ou mais urgente que a necessidade de dar resposta às preocupações decorrentes da moral sexual das famílias ou de debater o que deve ser feito com os divorciados que se voltaram a casar.

Não me parece que o Papa Francisco ignore todas estas questões, mas não estou, ainda assim bem certo que delas tenha perfeita consciência. Se o poder de atracção que o Papa tem sobre os que estão longe da Igreja é evidente, uma palavra certa para os que se sentem próximos de Cristo seria, eventualmente, suficiente para que voltassem ao bom caminho.

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