A lanterna vermelha de Corto Maltese

[O Ouvidor Ocidental]

Fernando Sobral

Corto Maltese sempre teve a sua pátria no mundo e no mar. A lanterna que o guiou ao longo das suas viagens fez com que nunca se perdesse no nevoeiro de aventuras sem sentido. Não sendo um herói, nunca procurou injustiças nas sete partidas do mundo para as combater. Também nunca foi um anti-herói. Corto é um observador arguto e que muitas vezes enfrenta os inimigos com frases cortantes. Hugo Pratt criou esta Banda Desenhada carregada de simbolismos e o seu desaparecimento, há duas décadas, deixou muitos de nós, fãs das suas aventuras, sem uma bússola que guiasse os sonhos neste mundo globalizado, demasiado igual, onde quase tudo já foi colocado num mapa com GPS. Hoje existem demasiados passaportes e fronteiras e cada um é cada vez menos senhor da sua sorte. Os sonhos diluíram-se no meio dos apelos materiais. Corto é despojado, vive de emoções fortes e de amores perenes. Transporta-nos para um mundo místico que nos chama para lá de um horizonte sem fim. De onde só chegam notícias escritas dentro de garrafas que navegam ao sabor das marés. Corto simboliza o passado livre que já é impossível viver. A sua ressurreição, duas décadas depois de “Mu”, com “Sous le Soleil de Minuit” (com autoria de Juan Díaz Canales e Rubén Pellejero), faz-nos recuperar esse mundo das grandes revoluções. Ou seja, as primeiras décadas do século XX.

Corto Maltese é o marinheiro errante de um mundo sem fronteiras (diz ele: “talvez apátrida. As fronteiras deslocam-se sem cessar. É cada vez mais difícil saber a que país cada um pertence”), cheio de ideais e de busca de identidades. Renasce quando hoje assistimos de novo ao regresso das fronteiras, dos nacionalismos que excluem tudo o resto, da falsa liberdade de movimentos. Corto vive noutro tempo, que nunca poderia ser este, mas lança luz sobre o presente. Continua a ser um nómada sem amarras, que busca um porto perdido mas repleto de horizontes. Hugo Pratt dizia que: “A minha vida está cada vez mais desligada do presente (…) encontra-se em mim e em Borges o mesmo esquema: uma mistura inextricável de verdades e de mistificações, de personagens reais e de personagens fictícias”. Tudo esse espírito livre está espelhado em “Sous le Soleil de Minuit”. Corto partilha connosco: “comandar nunca foi a minha especialidade. Contento-me em saber navegar”. E nós navegamos com ele.

Navegou mesmo para as fronteiras da China em “Corto Maltese na Sibéria”, uma das suas grandes aventuras. Onde se cruza, em busca de um comboio cheio de ouro, com uma das suas belas heroínas, a chinesa Shanghai Li, membro das Lanternas vermelhas, tríade eternamente feminina. Não deixa de ser curioso que, em “Corto Maltese na Sibéria”, são claras as notórias referências literárias que sempre marcaram o herói: ele lê “Utopia” de Thomas More. O seu passaporte é a utopia sem fronteiras. Dali a Hong Kong é um salto. Entre os personagens misteriosos que o seguem, estão as jovens das Lanternas Vermelhas, que lhe propõem um negócio: protegê-lo-ão se ele as ajudar a recuperar o tesouro imperial russo, frente a todos os que o desejam, incluindo os senhores da guerra chineses como Tchang Tso-Lin. Este e Corto têm em comum a amizade com a filha de um milionário de Xangai, Song. Aliados, tudo os separa. O tesouro é encontrado, mas Corto e Shanghai Li acabam por ter de se separar. Outras paixões os chamam. A lanterna que os guia leva-os para destinos diferentes. E, aí, Corto parece lembrar Sun Tzu: “Não é preciso ter olhos abertos para ver o sol, nem é preciso ter ouvidos afiados para ouvir o trovão. Para ser vitorioso precisamos ver o que não está visível”.
Com o regresso de Corto Maltese, prova-se que ele é como os gatos: tem sete ou mesmo nove vidas. Talvez sete, porque o marinheiro sem barco, sempre em busca de um destino que se recusa a conhecer e escondendo um segredo que nunca desvenda e do qual parece fugir, é um nómada cabalístico. “Sous le Soleil de Minuit” comporta-se como um poderoso sucessor de “Mu”, a última aventura criada por Hugo Pratt, onde Corto procura o continente perdido onde nasceu a humanidade. E onde, no final, o marinheiro olha para o infinito do oceano. Que o leva a cruzar as portas que dão para o Oriente eterno, atrás de uma simbólica lanterna vermelha.

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