Portugueses em Macau: Uma nota de enquadramento

[Dinâmicas e contextos da pós-transição]

Carlos Piteira *

Falar dos Portugueses em Macau não é tarefa fácil, isto se admitirmos que existem múltiplas “franjas” e múltiplas perspectivas de enquadramento, o que logo à partida nos coloca num espaço de pluralidade e porque não, também de ambiguidade.

Ao longo do ano corrente a RTP tem vindo a divulgar a nova diáspora portuguesa através de uma rubrica intitulada «Os Portugueses no Mundo», programa que enaltece os “novos empreendedores” da diáspora lusófona, onde Macau está também incluído. Programa que merece todos os meus elogios dentro do quadro a que se propõe.

No entanto, quando nos situamos na realidade que é Macau e vamos conhecendo e reconhecendo a comunidade portuguesa residente em Macau, esta, parece-me estar muito além dessa categoria das comunidades emigrantes que o programa aborda através da presença “salpicada” de empreendedores que vão dando testemunhos do que fazem para situar os Portugueses no Mundo.

A contextualização da comunidade portuguesa em Macau alicerça-se na própria fundação de Macau e mistura-se na história do seu passado longínquo assim como nas vivências de um presente recente que incorpora a nova RAEM (Região Administrativa Especial de Macau).

A presença dos portugueses residentes em Macau transparece a alma lusófona que legitima o próprio lugar, são eles que dão corpo, no dia-a-dia e no quotidiano que se vive, à singularidade que caracteriza o lugar, com eles vivemos as emoções e a pertença a um lugar que também é parte da sua vida.

Nesta conjuntura os Portugueses em Macau são, por si só, uma extensão da vivência multissecular e multicultural que se enraizou na tipificação do próprio lugar que é Macau, as suas histórias são historias de uma vida comungada e partilhada com a essência da própria terra, são mais do que estrangeiros em território estranho, mesmo após a sua integração na tutela da República Popular da China, para muitos a RAEM será sempre Macau e apenas Macau terra que os acolhe como sendo deles também.

Neste sentido e a propósito de um recente documentário sobre os «Macaenses em Lisboa» realizado por Carlos Fraga e produzido pela LivreMeio, foi-nos sugerida a hipótese de tentar mostrar uma outra versão dessa história da presença secular dos portugueses em Macau, vivificada pelos seus actuais residentes.

Não resisti a empenhar-me em mais esta colaboração, que na linha do documentário sobre os macaenses, volta a dar o rosto e a voz a quem aí está, tentando obter testemunhos (vivenciais) que possam clarificar a imagem de uma comunidade, que apesar de diminuta, marca um traço específico da singularidade dessa terra que é Macau.

A equipa parte já em Outubro para Macau a fim de articular com a Casa de Portugal em Macau, que também é parceira deste projecto, no sentido de fazer os “alinhamentos” necessários para captar as imagens e os sons. Sem este contributo (por parte dessa instituição) não seria possível estabelecer as “pontes” necessárias para abordar este tema.

Queremos, ao fim e ao cabo e com alguma modéstia, apenas registar uma outra versão da história, a versão dos portugueses que sentem e vivem o lugar (de Macau) como local de pertença numa terra que mesmo situando-se no Extremo Oriente, lhes é muito próxima na alma e nos sentidos.

(*) – Investigador do Instituto do Oriente e docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas / Universidade de Lisboa

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