Vamos de mãos dadas

Márcia Souto *

Jovens americanos, armados até aos dentes, continuam a querer ser Rambo: forte, firme, vaidoso e violento.

Jovens americanos, europeus, africanos, orientais, enfim, jovens…

As armas, que teoricamente deveriam existir para nos dar a sensação de segurança, seduzem crianças e jovens, que vêem nelas uma maneira de serem, finalmente, notados.

Os tímidos monstrinhos que habitam jovens almas de tímidos rapazes que crescem entre armas revelam-se em histórias que nos entram ecrã a dentro e respingam sangue no sofá, no tapete, na parede da sala.

Infelizmente, a velha nova história de mais um novo tiroteio em escola nos EUA não é mais um filme de ação ou aventura, um blockbuster de final de verão. E o “perfil” do assassino também não parece algo inédito: um estudante e mais de uma dezena de armas adquirida legalmente.

O constrangimento que um presidente, também pai de jovens, estampa é de arrepiar: mais uma vez o filme de terror passa em horário nobre e não há tempo de retirar as crianças da sala…

Meu menino, já oficialmente adolescente, olha aquilo com cara de “déjà vu” e balança lentamente a cabeça. E ficamos, incomodados, a pensar o que se passa naquela cabeça cheia de planos, sonhos e desejos absolutamente legítimos. E mais tarde, já na cama, continuamos a nos indagar o que ele pensa, o que ele vive na escola, o que ele vive com os amigos.

Certamente, como nós, inúmeros pais neste momento devem estar mais uma vez se perguntando se os esforços que fazemos para a promoção de uma educação para a paz, a tolerância e a compaixão têm surtido efeito. Como proteger nossos filhos dos “monstros” que há muito deixaram de viver no armário do quarto quando as luzes se apagam?

A cultura da violência, que gera “heróis” altamente bélicos, jogos “divertidos” em que se explodem cabeças (uma evolução do Tom e Jerry?) ou que se conferem mais pontos a quem atropelar mais velhinhas, só pode gerar uma parcela de lunáticos que querem ser EI, Boko Haram, Skinhead ou coisas do género? Ou não é nada disso…?

Continuo a me sentir despreparada e angustiada com tudo isso e, tal qual o Presidente, sinto-me constrangida diante da notícia do tiroteio em Oregon. Como ele, sinto-me desanimada diante desta loucura que tem vindo a se tornar rotineira.

E mais uma vez olho para o Presidente e vejo no seu rosto, no seu corpo, no seu discurso o que vejo aqui em casa, nos nossos sobrolhos, nos nossos ombros, nas nossas preocupações, então só me ocorre um poema de Carlos Drummond de Andrade (sempre Drummond):

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

(*) – Escritora e cronista

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s