Transparência e Coerência

Luís Sequeira*

Ao verem um homem que não era dos seus a fazer bem, em nome de Jesus, os discípulos, primeiro, procuram impedir-lo e, depois, fazem queixa dele ao Mestre, como se algo inadmissível e reprovável tivesse acontecido. Este é o caso que nos é apresentado no Evangelho deste Domingo, o Vigésimo Sexto, de 27 de Setembro.

Muito parecido a este, há um outro episódio passado com Moisés que completa e explicita um pouco melhor o sucedido com Jesus. Narra o texto do Antigo Testamento que o Espírito de Deus se manifestava em dois homens, eles também escolhidos por Deus, mas, na altura, fora da Assembleia do povo: «Então Josué, filho de Nun, que estava ao serviço de Moisés desde a juventude, tomou a palavra e disse: ’Moisés, meu senhor, proíbe-os.’ Moisés, porém, respondeu-lhe: ‘Estás com ciúmes por causa de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!.»

Como é possível tal deturpação? O bem ou a boa acção a ser transformada em mal, em acto não próprio, incorrecto, a ter mesmo de ser proibído! Aquilo que é um acto de bondade, uma ajuda generosa bem concreta, um serviço arriscado e corajoso em favor dos outros, uma esmola ou doação sem dar nas vistas, uma conversa amiga, fora de horas, mas tão necessária…Como é que todas estas manifestações podem ser, em determinados momentos, interpretadas de maneira tão negativa e contrária àquilo que, objectivamente, se vê ou contrária às intenções que as pessoas genuinamente nos deixam perceber?

O Senhor Jesus coloca as coisas no seu lugar. Antes de mais, declara: «Não o proibais». É a confirmação de que algo não está bem naquela maneira, quer de julgar quer de actuar. Em seguida, dá-nos uma chave de leitura do facto bem diferente daquela primeira inclinação que conduziu à proibição. Na verdade, oferece-nos uma compreensão mais profunda da natureza humana, onde mostra que a coerência interna do ser humano diante da Verdade e do Bem e da sua relação com Deus é intrínseca, estrutural e constitutiva do seu ‘ser’, homem ou mulher. Esta aspiração radical à coerência entre o exterior e o interior no comportamento de uma pessoa existe antes de qualquer possível disparate, como vigorosamente expressa o Mestre Divino ao dizer: «Ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós». Frase esta que nos faz lembrar ainda aquelas suas outras palavras, muito fáceis de entender: «A árvore boa não pode dar maus frutos assim como a árvore má não pode dar bons frutos….»

No entanto, a própria Palavra de Deus traz-nos igualmente a outra face da realidade da nossa humanidade, isto é, a sua dimensão terrena, frágil e imperfeita. É que nem sempre conseguimos manter aquela força interior do Espírito que nos leva a só buscar a Verdade, o Amor, a Beleza, a Perfeição. Em suma, a Deus. Moisés, com o povo do Antigo Testamento, é contundente e desmascara essa atitude sem qualquer subterfúgio. O grande líder do povo hebreu pergunta, categoricamente, a Josué:« Estás com ciúmes…?».Este pormenor, cheio de perspicácia psicológica, está implícito também, creio eu, no diálogo de Jesus com o seu apóstolo, João.

Estes encontros, tanto o de Moisés com Josué, como o de Jesus com João,   levam-nos, assim, mais longe no entendimento da experiência simultaneamente, humana e espiritual, por onde passarão todos aqueles que querem crescer na experiência íntima de Deus. Para ter a verdadeira compreensão da realidade que nos circunda ou em que estamos inseridos e ter a correcta actuação para com os outros temos que ter um coração livre e transparente. Caso contrário, com um coração dominado pelos ciúmes e inveja, não conseguimos discernir nem a Verdade nem o Amor nem, acima de tudo, os caminhos de Deus. Ao invés, corremos o risco de afirmar barbaridades ou de cometer erros que bradam ‘aos céus’ ou de perder completamente ‘o sentido da realidade’

Há que conhecer o coração humano, tão cheio de máscaras, fantasmas e afectos desordenados. Muitos sentimentos que são reais e verdadeiros em mim, na realidade, não são reflexo da Verdade. Longe disso! Conseguirá alguém, homem ou mulher, carregados de ciúmes ou inveja ou dominados pela sede do poder,ver a realidade com objectividade? Antes, eles a deformarão e a deturparão até chegar à falsidade.

Uma falsidade que descobrimos, hoje em dia, a todos níveis, em todos os continentes e hemisférios, em todas as raças e culturas, em todas as religiões, em todas as filosofias e ideologias, entre ricos e pobre.

Sim, descobrimos, tristemente. Muita falsidade, muita corrupção e mentira.

(*) – Sacerdote e antigo superior da Companhia de Jesus em Macau.

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