Mosaicos

Filinto Elísio

Os Condenados da Terra

O drama é maior e pode ser mais perigoso do que se apercebe. Põe, sorrateiramente, a Humanidade em tragédia. Em consequência, as nossas energias não podem ser diluídas em lágrimas. Não agora, nem ainda. Milhares de migrantes – para uns, mercê das perseguições e impossibilidades de vida; para outros, refugiados de guerra e mudanças climáticas -, todos em desespero, saem da África e do Oriente Médio à procura de porto seguro e de solidariedade internacional. O Mar Mediterrâneo tornou-se o grande cemitério para muitas vidas e o corredor de êxodo de seres humanos. A opinião pública mundial, a maior parte apanhada alienada ao problema, não sabe como gerir o problema. Faz lembrar, agora em movimento contrário, os milhões de europeus que, nos contextos da I e da II Guerras Mundiais, fugiam para as Américas e a África. De permeio, emergem preconceitos raciais e xenófobos, bem como falácias para estigmatizar os desamparados. Novos muros, mais insidiosos que de Berlim, tendam barrar os atuais deserdados da terra e cerrar as fronteiras. Se recuarmos no tempo (e na mitologia religiosa), vemos Moisés a conduzir o seu povo, fugindo ao cativeiro, rumo à Terra Prometida. E, agora que a ONU celebra seu Septuagésimo Aniversário, não procede apenas a reflexão sobre esta grande problemática global, mas a resolução clara e consequente, antes que tudo seja um novo Holocausto, de encontrar solução humanitária à questão. Não há tempo para pieguices isoladas e lágrimas seletivas na 90ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, a acontecer nos próximos dias.

Compañero Francisco

Agora, em tempo de Fim do Bloqueio e com a visita do Papa Francisco a Cuba, reaviva-me o livro de Frei Betto, “Fidel e a Religião”. Às tantas, numa das muitas entrevistas dadas pelo Timoneiro da Revolução Cubana a um dos ativistas da Teologia da Libertação, aprende-se quão revolucionário o Cristianismo Primitivo e assaz consequente a política do Pão e da Palavra, vaticinada por algumas passagens dos Evangelhos e disseminada pelas Comunidades Eclesiais de Base. Longe dos paramentos e das togas da Roma Antiga, transmigradas para o Vaticano e impregnadas nos pilares da Igreja, tais ensinamentos roçam à meditação, ao pacifismo e ao zen, ingredientes que reconfiguram a percepção que temos de Cristo, também, e sobretudo ele, messiânico. Naturalmente que não farei aqui apologia ao aparato dos poderes, cada um Leviatão ao seu modo, de Cuba, do Vaticano e/ou qualquer seja, com suas congruências e incongruentes, mas o Papa Francisco, distâncias à parte e respeito ressalvado, subverte, com as suas Sandálias de Pescador, o Monstro Globalitário e sua Espada de Dâmocles. Salve, Santo Padre, Compañero Francisco.

Gestão das Impossibilidades

José Maria Neves, autor do “Cabo Verde: Gestão das Impossibilidades”, é mais do que aquilo que dele se conhece. Diria que é muito mais do que aquilo que se depreende da figura pública que encarna. Líder no sentido lato da palavra, ele vai aos limites do que seu estatuto político-institucional (Primeiro-Ministro de Cabo Verde) permite. Trouxe-nos ele um livro desafiador e bem construído. Teorizando sobre o processo dialético do fazer das realidades improváveis cenários da esperança, a leitura desta obra nos suscita anteparos e meandros da agenda de transformação para o Desenvolvimento. Problematiza os desafios de realização, com denodo, do bem comum e de resguardo, com desassombro, da estabilidade democrática no processo histórico contemporâneo que vivemos. Um livro bem escrito (com engenho e arte de sedução da linguagem) que, por intelectiva, nos instiga a buscar (e a encontrar) espessuras novas desta paixão vigorosa que todos (independentemente das nossas convicções políticas e ideológicas) devotamos a Cabo Verde.

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