Lições europeias

As próximas linhas versarão sobre um assunto que está longe, muito longe, do dia-a-dia do leitor mas que, em Portugal e na Europa, tem suscitado um amplo debate no seio das opiniões públicas – e publicadas.

Este texto mais não é, pois, do que um contributo adicional para essa expressão.

São milhares aqueles que, desde o início de 2015, cruzaram as fronteiras politicas e geográficas da União Europeia provenientes, na sua maioria, da Síria e do Afeganistão.

Mas também da Líbia, do Sudão, da Eritreia e de outros países de África.

Atravessando o Mediterrâneo ou países como a Turquia, a Grécia, a Macedónia, a Sérvia, a Hungria, fogem da guerra, da fome, da pobreza, enfim, da miséria.

Não é por acaso que, segundo a Amnistia Internacional, nunca o mundo conheceu uma tão grande ‘vaga’ de deslocados e refugiados desde o fim, há 70 anos, da Segunda Guerra Mundial.

O destino?

Uma terra que lhes dê – e aos seus filhos –, desde logo, abrigo.

Mas também segurança, trabalho, dignidade.

Ou, numa só palavra: futuro.

No entanto, a Europa parece, uma vez mais, ter sido apanhada de surpresa: a construção de muros com arame farpado, o reforço policial em locais ‘chave’ como postos fronteiriços, o estabelecimento de quotas referentes ao número de pessoas a ser acolhido por cada país da União…

Na verdade, tais medidas lembrarão o sentimento que moveu alguns senhores, na chamada Idade Média europeia, a construírem castelos, quais fortalezas, totalmente rodeados por fossos com água.

Com esses fossos cheios de água pensavam ser possível deter os indesejáveis.

Também a Europa de hoje, em 2015, pensará ser possível impedir a entrada, não já de soldados inimigos, por exemplo, mas de migrantes e de refugiados.

Puro engano.

No entanto, apesar de toda esta tragédia humana, quem quer que visse, há pouquíssimos dias, os blocos noticiosos da maioria dos canais televisivos portugueses poderia notar o facto de, com poucos minutos de diferença, serem, também, emitidas peças dando conta da transferência do jogador de futebol X para o clube Y por não sei quantos milhões de euros.

Repare-se que não critico o alinhamento de tais trabalhos jornalísticos e reconheço que a vida dos homens não é “preenchida”, claro, por apenas um assunto, se se quiser chamar assim.

Critico, sim, e acho, até, obsceno, o facto de que a mesma Europa que condena à morte centenas ou milhares de pessoas (recorde-se que o Mediterrâneo se tornou já o cemitério para muitas delas) que cometeram, apenas e só, um único ‘crime’ – encarar o Velho Continente como uma terra de prosperidade (chame-se-lhe o sonho europeu), hipervaloriza alguns jogadores do ‘desporto-rei’ (tratando-os, assim, como mera mercadoria) e permite que o futebol seja, cada vez mais, um negócio de (muitos) milhões em que uma qualquer ausência de documentação levará, no pior dos casos, à inviabilidade de um contrato.

Ricardo Jorge Pereira

Antropólogo e investigador

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s