Factos, argumentos e afirmações

*Ana Paula Dias

O termo “facto”, do latim factus, faz referência àquilo que acontece, à ação, circunstância ou assunto de que se trata. Considera-se um facto aquilo que tem por base a experiência, que é empírico ou experimental. “Argumento” deriva do vocábulo latino argumentum; consiste no raciocínio que se utiliza para demonstrar ou comprovar uma proposição ou para convencer outra pessoa daquilo que se afirma ou se nega. O argumento exprime um raciocínio, que permite justificar algo como razoável, com duas finalidades possíveis: persuadir outro sujeito (para promover uma determinada ação) ou transmitir um conteúdo com sentido de verdade (fomentando o entendimento). Os argumentos devem ser coerentes, consistentes e não apresentar contradições. Só assim o locutor conseguirá cumprir os seus objectivos; caso contrário, arrisca ser contestado ou rejeitado pelo recetor. Finalmente, “afirmação”, do latim affirmatĭo, é a ação e o efeito de afirmar. A afirmação reflete um assentimento relativamente a uma crença que é considerada válida por evidências ou certezas. É possível considerar diversos graus ou tipos de afirmação, segundo a consciência sobre a veracidade daquilo que é afirmado: neste sentido, as afirmações podem ser opiniões, decisões, apreciações, etc. As afirmações associam-se a tudo o que é dito por uma pessoa. Afinal de contas, aquilo que é posto em palavras constitui uma extensão daquilo que o sujeito pensa – expressões como “Na minha opinião, o presidente não faz um bom trabalho”, “O bacalhau à Brás é o meu prato favorito” e “Saí de casa às oito da manhã e cheguei ao trabalho às nove” são exemplos de afirmações proferidas por um indivíduo.

No ano de 2015 (à semelhança, aliás, do que já acontecia nos anteriores) proliferaram, nas notícias locais, afirmações procedentes de diversas entidades sobre o “crescimento exponencial” de aprendentes de português na China, fazendo manchetes no mínimo mensais, reproduzidas depois em jornais de Portugal e nas redes sociais, celebrando a grande procura da língua portuguesa não apenas em Macau, mas também na China. Tendo em conta a população deste país, estimada em aproximadamente 1 375 043 171 de pessoas, todos nos congratulamos com o universo incomensurável de pessoas que apostam no idioma luso por lá e com o reconhecimento da sua importância e vitalidade.

O número 8 da revista digital Portu-nês (http://www.portunes-online.com/), que nasce de um interessante projeto de criar uma plataforma online que permita à rede de professores e estudantes de língua portuguesa na China estar em contacto permanente, partilhar informações, opiniões, preocupações, problemas, é uma edição especial precisamente dedicada à apresentação de dados estatísticos sobre o “Português Língua Estrangeira na China em Números”. Esta edição disponibiliza o Número Total de Estudantes e Docentes, o Número de Estudantes por Instituição, o Número de Estudantes Admitidos por ano lectivo, o Número de Docentes Chineses, o Número de Docentes Estrangeiros e um Mapa Interativo com a distribuição geográfica dos aprendentes de português por região. Trata-se de uma iniciativa louvável, mais a mais por ser particular e pelas dificuldades em manter um projeto desta envergadura, sem apoios oficiais que o sustentem. Inegavelmente, são os números que nos dão um panorama desta realidade aliciante tão amplamente difundida nos meios de comunicação social.

Vejamos então alguns desses números: entre 1960 e 2015, ou seja, ao longo de 55 anos, houve um total de 3798 pessoas a aprender português na China. Os anos de 2008 a 2014 são aqueles em que se verifica efetivamente um aumento na procura de cursos de português, com uma média anual de cerca de 380 estudantes. Em 2015, há um total de 140 alunos de português no país, distribuídos por cursos de bacharelato, licenciatura e mestrado.

Surpreendente? Talvez. Mas retomem-se as definições dos termos apresentadas no início – contra factos não há argumentos. Apenas afirmações. E muito trabalho a fazer.

*Doutoranda na Universidade Aberta

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s