Divagações em tempo de férias

[Dinâmicas e contextos da pós-transição] 

O período de férias e, essencialmente o mês de Agosto, tem sempre este efeito neutralizador que nos coloca um pouco distantes de tudo o que se passa no mundo para nos concentrar na nossa vida mais intimista que é o prazer de passar férias, claro nem sempre aplicável a todos porque simplesmente não as têm ou escolheram períodos diferentes.

Passamos a estar mais tranquilos ao sabor das brisas e do sol que nos vai apaziguando, quer a mente quer o corpo e um secreto sussurro que vamos interiorizando com um «viva o descanso».

Perante uma pré-campanha eleitoral que se vai desfilando sem qualquer nota digna de registo e uma crise na Grécia e na Europa que se vai esfumando em termos de interesse porque, já nem nos interessa saber se a Grécia sai ou não sai do Euro, todos temos a noção de que as coisas não vão melhorar, pelo menos aqui na Europa e em Portugal, refugiamo-nos no nosso mundo e libertamos a nossa euforia em poder ao menos ter alguns dias de descanso.

Macau, pelos vistos, vai também tecendo os seus pontos de inflexão, para não dizer desilusão, a crise imobiliária que não se desvanece, os terrenos que não se sabe bem o que fazer deles, os deputados que anunciam candidatar-se ao hemiciclo de S. Bento como se noticia fosse e outras intrigas palacianas que se vão instalando, para além de Hong Kong que troca os chapéus-de-chuva por sutiãs como símbolo da contestação, isto para não falar da queda das receitas provenientes do jogo com os efeitos que daí poderão ocorrer para a pacata e simultaneamente turbulenta vida em Macau.

Perante estes cenários imbuídos no nosso espírito de férias conseguimos abstrair-nos dessas realidades, pelo menos por um tempo, para voltar a ter a nossa vida de volta e que bom que é.

Coloco por vezes esta questão a mim mesmo, que é o de saber se não poderíamos estar mais vezes envoltos desse mesmo espírito, já que o que nos rodeia não passa, provavelmente, de uma ilusão mediática ou virtual lançada pelos jogos de poder e que interferem no nosso quotidiano de afazeres.

O mundo gira independentemente das crises e das notícias, podemos viver com elas ou sem elas e quem sabe até trocar de perspectivas, o que em boa razão é o que fazemos nestes dias de Agosto, apenas trocámos as perspectivas. O mundo como nos contam continua lá mas também temos o direito a ignorá-lo, porque não?

A ausência substantiva desta crónica revela que por vezes também é bom, nada ou pouco dizer, porque queremos e temos o direito de esquecer ou ignorar o que é considerado importante por quem gere o poder.

Retomarei obviamente algumas das grandes e pequenas questões que se aproximam e que prometem acalentar este final de ano muito profícuo em temas eleitorais, isto se a razão me auxiliar, porque em boa parte a ligação entre Macau e Portugal ainda passa por aquilo que os nossos governantes (daqui e daí) possam vir a prometer ou a delinear em termos de acção governativa, pelo menos assim espero.

E como o sol não se esconde e a brisa sopra favoravelmente, fica o desejo que todos possam usufruir deste momento tranquilizante onde as férias são mais importantes que o mundo que nos rodeia. Viva o descanso.

———————————

(o texto não segue o acordo ortográfico em vigor)

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas / Universidade de Lisboa

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s