Cor Sino

Márcia Souto

CORSINO FORTES (1933-2015) nasceu na ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Licenciado pela Faculdade de Direito de Lisboa (1966), exerceu atividade profissional na magistratura em Angola, onde foi juiz do Tribunal de Trabalho de Benguela. Diplomata, atuou como Embaixador de Cabo Verde em Portugal, Espanha, França, Itália, Noruega e Islândia, entre 1975 e 1981; em Angola, foi Embaixador entre 1986 e 1989, exercendo função semelhante em São Tomé e Príncipe, Zâmbia, Moçambique e Zimbabwe. De 1989 a 1991, desempenhou o cargo de Ministro da Justiça e foi Presidente da Fundação Amílcar Cabral. Poeta, publicou a trilogia “A Cabeça Calva de Deus” (2001, Editora Dom Quixote), composta dos livros “Pão & Fonema”, “Árvore & Tambor” e “Pedras de Sol & Substância”. Publicou recentemente o livro “Sinos de Silêncio: Canções e Haikais”, pela Rosa de Porcelana Editora. Faz parte de antologias em várias línguas, como inglesa, francesa, italiana, holandesa. Foi o primeiro Presidente da Academia Caboverdiana de Letras.

Márcia Souto

Conheci-o há alguns anos em Salvador da Bahia. Garboso em suas vestes quase sempre alvas, ele me hipnotizou. Talvez por sua calma elegante, talvez pela altivez discreta, Corsino Fortes nunca passou incólume. No dia seguinte ao encontro inaugural, o humor marcou a tónica. Fomos ao teatro, assistimos ao hilariante grupo “A Bofetada”. Entre uma picardia e outra, conferíamos se o Poeta achava graça ou se tínhamos errado na mão. E ele ria, quieto e quase desconfortável, ele ria meio nervoso diante do humor ora cáustico ora burlesco da trupe baiana. Ver Corsino rir ou esconder o riso iluminava ainda mais o momento.

Também me toma a lembrança, desta feita em São Paulo, o seu dissimulado espanto, aquando de um sarau poético na periferia da megalópole brasileira, no qual, enlouquecido, gritava um declamador: “Silêncio, silêncio para ouvir… a própria bufa”. Silêncio. Gargalhei… gargalhamos muito diante do desconserto que a “toada poética” nos provocou. Sendo Corsino o nosso mais velho, entreolhamo-nos e em seguida, em rabo de olho, olhamos para ele, que, também a gozar connosco, fazia-se de assustado. Ato contínuo ele pede a palavra e diz um lindo poema, como a elevar o astral no sarau da Coperifa.

Generoso, o Poeta Corsino Fortes não quis partir sem repartir-se, por isso, com alguma respeitosa distância, vimos o querido amigo organizar sua “hora de bai”, cabendo a nós (ao Filinto e a mim) um presente que nunca nos cansaremos de agradecer: deu-nos a honra e a alegria de editar seu último livro: “Sinos de Silêncio: Canções e Haikais”. Trata-se de um belíssimo adeus, que quisemos, modestamente, fazer também de um bonito livro um livro bonito. E creio que fizemos o nosso melhor. Igualmente quisemos celebrar Corsino nos atos de lançamento do livro, em que, emocionados, todos aplaudimos e agradecemos aos deuses pelo privilégio de termos sido contemporâneos de uma figura ímpar como o Poeta, Amigo, Diplomata Corsino Fortes, que se encantou no último julho, deixando este agosto mais agosto ainda.

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