A outra Rota da Seda

[O OUVIDOR OCIDENTAL]

Fernando Sobral

Quando os impérios Ming e Otomano fecharam a Rota da Seda, os portugueses descobriram o seu destino. Dobraram o Cabo da Boa Esperança e fizeram da geografia comercial o seu legado à Europa. A Rota da Seda portuguesa fez-se por mar, evitando desertos, seduzida por sereias e atormentada por monstros marinhos. Lisboa tornou-se, por momentos, Veneza e Constantinopla. Foi uma utopia, tão sedutora como a que Camões cantou nos “Lusíadas”. Por momentos os portugueses foram deuses. Portugal deve parte do seu passado à Rota da Seda. Há muito que desapareceram as caravanas que transportavam a seda da China para vestir a vaidosa aristocracia de Roma. A sedutora Rota da Seda foi-se perdendo na imaginação colectiva dos povos da Ásia, da Europa e do Médio-Oriente até renascer fruto das iniciativas económicas globais do presidente Xi Jinping. Mas nunca deixámos de sonhar com essa rota que, para além do comércio, fez com que o Budismo chegasse à China vindo da Índia e que o exército de Alexandre, o Grande, levasse a cultura da Grécia clássica para a Ásia central e para o subcontinente indiano. Não foi só isso: nas caravanas de camelos seguiram os primeiros missionários cristãos rumo à Ásia e os cruzados trouxeram das grandes livrarias do mundo islâmico os textos clássicos esquecidos pela Europa na Idade das Trevas. A Rota da Seda, tornou-se uma imagem romântica. E perigosa. A rota não era uma só: era uma teia de caminhos possíveis. E nem era chamada assim até um geógrafo alemão, o barão Ferdinand von Richtofen ter sonhado com o nome no século XIX. Era uma mistura de mais de uma dúzia de rotas que vinham da China através da Ásia Central até ao Mediterrâneo, passando pelas estepes cazaques e pelos Himalaias. As caravanas passavam por desertos e rios e, quando a sorte sorria, dormiam em “caravanserais”, pousadas de pedra construídas pelos chefes locais para encorajar o comércio. As distâncias eram tão vastas que nenhuma caravana de camelos conseguia fazê-la do princípio ao fim. Mercadores locais dominavam o transporte de bens na sua área de influência. A geografia era apenas um obstáculo. Os planos dos viajantes eram confrontados com muitos interesses diversos, tendo de viver da inteligência e do suborno. A rota da seda viveu e sobreviveu durante 25 séculos.

A seda era um segredo maior que os chineses quiseram guardar para si. Não necessitavam de o vender, mesmo que a subtil textura e beleza tivesse chegado ao ouvido dos gregos. Mas nem a Muralha da China logrou deter os cavaleiros hunos, sedentos de conquistar riquezas desconhecidas. Para os combater os governantes chineses tiveram de encontrar aliados. E de os convencer. Um dos seus embaixadores embrenhou-se no desconhecido das estepes da Ásia central. Não descobriu aliados, mas trouxe um tesouro maior: cavalos fortes. O preço era demasiado alto: muita seda por cada cavalo. Desvendado o segredo, nunca mais ele voltou a ser colocado na lâmpada. A Rota da Seda nascia. Chegou ao império que hoje ocupa o território do Iraque e do Irão. Os romanos descobriram-no no primeiro século antes de Cristo. Tornou-se o sonho da elite imperial. Os comerciantes árabes moveram o centro de gravidade da rota para Bagdad, essa cidade das mil e uma noites e dias. O período dos mongóis, curiosamente, foi o que permitiu as caravanas viajarem em segurança. Foi nesse tempo que Marco Polo foi à China e voltou para contar as maravilhas que vira. A Rota sofreria cíclicos percalços. O Império Ming que derrotou os mongóis em 1368, fez com que a China se voltasse a fechar sobre si própria. E quando Constantinopla, chegou a ser conhecida como a “cidade púrpura”, por causa de ser um centro da produção de seda, foi capturada pelos otomanos em 1453, a oportunidade para a Europa procurar novas rotas rumo à seda e às especiarias tornou-se um imperativo comercial. Vasco da Gama caminhou para Oriente. Nascia uma outra Rota da Seda. A que marcou Portugal para sempre.

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