Televisão de primeira liga

O Detective Selvagem

Hélder Beja

Eu ainda sou do tempo em que a TDM passava os jogos da Premier League. Eis uma frase que vai fazer escola, também em chinês, e que, a correr de feição, poderá passar de geração em geração de telespectadores que, a partir de agora, poderão antes deleitar-se com as transmissões desse campeonato extremamente competitivo que é o japonês.

Tudo isto faz sentido. A TDM, como se sabe, tem uma programação riquíssima, sendo até difícil escolher entre os diferentes canais e aquilo que ver. Parece que quando chegou a hora de negociar os direitos da liga inglesa, esse campeonato menor, os detentores dos direitos para a Grande China (e a China é muito grande, daqui nem se vê a outra ponta) foram garganeiros, quiseram agasalhar-se com as rendas da estação local. Semanas de intensas negociações, só semelhantes às da transferência fantasma de Sérgio Ramos para o Manchester United, acabaram em falhanço.

A TDM, seguindo a lógica de aperto do cinto que começa a estender-se por Macau – dessas pequenas corporações em sofrimento que são a Sands e a Melco, até aos departamentos governamentais onde, pelo andar da roleta, daqui por algum tempo não haverá nem verba para uma esferográfica – dizia então que a TDM mandou os senhores da Grande China dar uma volta à muralha grande, regressou a casa sem a Premier League mas com o orgulho intacto de quem não se verga a tácticas negociais mesquinhas, mesmo que sejam em 4-4-2.

Não que duvidemos da sensata decisão da TDM em tocar no ópio do povo, mas seria importante que se tornassem púbicos os valores envolvidos nessas negociações. Talvez largos milhões de patacas, ou talvez a estação da Grande China quisesse uma permuta e tenha sugerido levar cedida uma novela brasileira dos anos 1990 com legendas em inglês e algum formigueiro – algo que, aí sim, seria inaceitável.

Quanto à escolha da J League para “compensar” a perda da liga inglesa, faz todo o sentido. O Japão é perto e bom caminho, pelo que o sinal chegará sempre fresquinho. Além disso, toda a gente sabe que em Macau se lê muito mais Murakami que Shakespeare; e se como muito mais sashimi que sandes de lombo.

Eu cá já estou em pulgas com a J League. À frente do campeonato vai o Hiroshima, clube com um nome muito histórico, seguido do Nagoya, que tem uma espécie de Wayne Rooney do tatame, e do Kawasaki Frontale, treinado pelo Mourinho de Kanagawa. Em último segue o Vegalta Sendai, minha equipa desde pequenino. Apesar da má classificação, ainda há esperança para o Vegalta, porque esta semana jogamos em casa com o Kashiwa e o vento está suão.

Em tempos como este, importa dizer que as coisas não vão mal no que toca à transmissão de conteúdos de excelência na emissora local. Agora só falta que a TDM garanta os direitos do campeonato de pólo aquático da Mongólia e da distrital de xadrez de Ho Chi Mihn. Aí sim estaremos na elite da televisão mundial.

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