Águas Negras

Poeira das Estrelas

Filinto Elísio*

Releio neste verão o livro “Águas Negras” de Lívia Natália. Um conjunto de vinte e nove textos poéticos, em três cadernos (Odu Omin, Marés sem Fim e Desaguar), que fazem a sonda em profundidade e o mapeamento das múltiplas dimensões desta poeta brasileira (negritude, a mulher, a cidadania, a consciência social e ambiental, a visão endógena, a envolvente exógena, a percepção da psique e da interculturalidade) e seus interstícios linguísticos e psicanalíticos. Ela aporta tudo isso, mais seus predicados de ser “Toda a Menina Baiana”, como a entoada por Gilberto Gil, e carrega brocados de militante da emancipação de sua feminilidade, como no-la cogitou Simone de Beauvoir em “Deuxieme Sexe”, e de conscientização antropológica do ethos, por águas navegadas pelos estudiosos brasileiros Darcy Ribeiro, Nilton Santos e Florestan Fernandes, entre outros.

O livro de Lívia Natália lembra-me, entre outras,  três mulheres-referências da moderna literatura, nomeadamente a poeta angolana Paula Tavares, a poeta santomense Conceição Lima e a poeta americana Maya Angelou.

A poeta Paula Tavares, a que diz:

(…)

De que cor era meu cinto de missangas, Mãe 

Feitas pelas tuas mãos 

E fios dos teus cabelos

Cortado na lua cheia

Guardado do cacimbo

No cesto trancado das coisas da avó?

A poeta Conceição Lima, que remata, em dolorosa raiz:

(…)

E não me bastam pombas dementes no teu rosto  

não bastam consciências soluçante em teu rasto  

não basta o delírio das lágrimas libertas.

Cantarei em pranto teu regresso sem idade  

teu retorno do exílio na saudade  

cantarei sobre esta terra teu destino de rebelde.

E a poeta Maya Angelou, aquela que pergunta “A minha altivez só ofende?” E canta assim em Still I Rise:

(…)

Você pode me inscrever na História

Com amargas mentiras a contar

Você pode arrastar-me pela poeira,

Ainda assim, qual pó, levantar-me-ei

 

A minha elegância o perturba?

O que o leva a afundar-se nesse pesar?

Só porque caminho como se tivesse

O manto de petróleo pela sala de jantar?

Assim com a lua e o sol

Como a certeza nas ondas do mar

Tal como ergue a esperança

Ainda assim, vou me levantar

Queria também realçar o Existencialismo que sobressai no texto poético de Lívia Natália. Desliza, com engenho e arte, surfando-se quase, pela crista das ondas do imponderável existencial como poucos. Estará ela a reconfigurar a poeira que ao sopro de Deus ou do Mito de Osíris, na alegria ou nos tormentos da nossa solidão maior que se cavalga pelos ventos de Iansã?

Transumância

Talvez seja de um filme indiano a frase de que o comboio errado nos pode levar à estação certa. A sentença, de mediana sabedoria, gera transumância em quem escreve. Desvairado, o narrador vê cavalos de passagem e seus relinchares ecoando longe. Em vertigem. Passam cavalos, alguns alados, saiba-se. Estação, porto, aeroporto, beira de estrada, praia deserta, onde calhe e seja. Em trânsito. Diria melhor: em trâmite. Aprendendo coisas novas – umas, balsâmicas, que fazem sorrir; outras, de ignóbeis, a revoltarem até à medula. Desaprendendo causas – as de antanho, por quiméricas, e as mais contemporâneas, excessivamente duras. Mantém-se na viagem a leve esperança do bom abrigo, ainda que, de lucidez acesa, não nos desponte aqui e acolá a manhã que cante. Mesmo recambiando as ondas à improcedência do mar alto, fica-se sempre em dúvida acerca do lugar e do tempo. O achar que esta praia infinda seja o buraco negro para além da cosmologia e pretender esta hora nem de chegada, nem de partida, espuma rendilhada à beira dos nossos pés. E depois, em havendo algum depois, a náusea sucessiva. O recessivo alarve. E há as nuvens, e há o céu, e há a areia escoando na clepsidra, e há o pássaro e o inseto, e há o réptil e o peixe. A secreta vida da planta. Essa diagonal dos musgos. A pedra. E há a pedra, repete-se, ora amorfa e inerte, mesmo quando preciosa. E há os diamantes que não são eternos. E há os deuses que não são todos poderosos. E há as bandeiras , as razões, as verdades, os frágeis axiomas, já inequações tornadas. Estivais passagens, sentimo-las. O gado de nada, a lua, as estrelas, o nada disso. A transumância da torre no tabuleiro do xadrez. E os cavalos têm um movimento especial que parece a letra L. Em lato senso e imponderáveis, quase iónicos, no átomo. Ah, esta imponderável permanência…

Estado da Nação

No último dia de julho, debateu-se em Cabo Verde o Estado da Nação, iniciativa que fecha o ano parlamentar caboverdiano, permitindo aos sujeitos parlamentares (Governo e Partidos Políticos) ponderar o tempo histórico e as condições, senão mesmo as conduções, do Arquipélago. Contrariando os prognósticos mais sombrios, Cabo Verde é hoje, 40 anos desde a sua Independência, uma nação soberana, livre e democrática, claramente, mau grado ainda enorme condicionalismo, em transformação para o desenvolvimento. O segredo não está nos recursos, pois não os tem, mas sim no seu capital humano que, de forma surpreendente, vem apostando em fazer o país ganhar peso e medida, quer da perspetiva socioeconómica, quer da perspetiva política e simbólica. Gerindo bem as suas pertenças (a africana, a lusófona e a global), potencial exaurido da sua quase perfeita mestiçagem, Cabo Verde tem se saído relativamente bem da sua própria condição de Pequeno Estado Insular, mas Nação Global (à escala da sua insularidade e da sua diáspora).

*Escritor

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