Virgens ofendidas na cidade da negação

Travessa das Verdades

Inês Santinhos Gonçalves*

inessgoncal@gmail.com

Seguindo o bom estilo chinês, o Governo de Macau veio, mais uma vez, indignar-se com o relatório do Departamento de Estado norte-americano sobre o tráfico de seres humanos, afirmando que as informações “não correspondem à verdadeira realidade”.

Parece que o Executivo tem “prestado grande importância” e criado “subgrupos interdepartamentais” que, com os seus esforços, conseguiram “um efeito notável e um enfraquecimento considerável do fenómeno do tráfico de pessoas”.

Se quisermos descartar o Departamento de Estado norte-americano – porque é gente que só quer interferir externamente e manchar a imagem imaculada da capital mundial do jogo – podemos recordar uma conferência internacional que decorreu em Março, no casino MGM, onde até o Governo esteve representado. O cenário não era muito diferente daquele traçado no relatório dos Estados Unidos: só o Centro Bom Pastor recebeu, desde 2012, 39 menores vítimas de tráfico humano. O próprio assessor do secretário para a Segurança, Cheang Kam Va, falou de 107 vítimas identificadas desde 2010, sendo que em 2013 se verificou um pico de 38 vítimas, 17 das quais menores.

As histórias repetem-se: são jovens de aldeias empobrecidas, a maioria da China no caso das menores, com pouco acompanhamento familiar e que são aliciadas para empregos bem pagos em locais longínquos, como Macau.

“Depois de entrarem na rede, são frequentemente revendidas por traficantes e mudam-nas de sítio. A economia de Macau está a florescer, há muita procura e [os exploradores] recebem muito mais dinheiro. É por isso que as trazem para Macau”, explicou na altura, em declarações à agência Lusa, Aris Tam, investigadora do Instituto Politécnico de Macau e antiga colaboradora do Bom Pastor, especializada no apoio às vítimas menores.

Factos são factos. E não devemos apenas preocuparmo-nos com menores. Será que devemos acreditar que todas as prostitutas de Macau – quase todas vítimas de tráfico humano – desapareceram da cidade após a aparatosa detenção de Alan Ho?

A convivência próxima entre a principal indústria de Macau e o negócio da prostituição é óbvia. Bastaram 20 minutos ao investigador holandês Henk Werson, orador na mesma conferência, para o confirmar. “Nunca tinha estado em Macau antes. Ontem [16 de Março] quis ir comer batatas fritas e entrei em dois casinos. Vi imediatamente algumas pessoas a moverem-se que eram provavelmente prostitutas, foi possível vê-las a procurar ‘o peixe graúdo’. Sou polícia, olho para as coisas com outros olhos, e consegui identificá-las logo. Em 20 minutos vi três ou quatro mulheres que entraram em contacto com jogadores. Estou certo que lhes foram oferecer serviços sexuais”, descreveu, também à Lusa, sem especificar em que casinos esteve.

O que me espanta não é que tal exista, mas a hipocrisia do Governo, que chega ao ponto de desmentir publicamente um relatório que aponta o óbvio. Depois, ainda por cima, de se revelar que foi reduzido o financiamento de 3 milhões para 1,8 milhões de patacas para custear e apoiar as medidas de protecção das vítimas – isto segundo os papões norte-americanos, claro.

Nesta conferência emergiu – após muita insistência dos jornalistas, devo dizer – uma conclusão que é óbvia e básica para qualquer residente (ou até turista) e que o Governo finge, qual virgem ofendida, não ver: “Falei com vários casinos em Macau que estão em completa negação sobre esta situação. Posso sair de um casino e ser abordado por três raparigas, mas eles dizem-me ‘Não é nosso problema, isso é fora do casino’”.

As palavras de Richard Welford, presidente da Corporate Social Responsability in Asia, tocam no ponto essencial, ainda que recorrendo a eufemismos.

Apesar de também existirem vítimas de tráfico humano envolvidas em trabalho forçado, a maioria, em Macau, acaba em redes de prostituição. Estas redes servem que clientes? E a indústria, alimentada por esses nobres clientes, beneficia quem?

As virgens ofendidas deviam pôr a mão na consciência antes de partirem para declarações indignadas.

*Jornalista

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