Olhar e não ver

Activo Estratégico

Patrícia Silva Alves

Na nota introdutória ao relatório “Trafficking in Persons”, do Departamento de Estado norte-americano, o secretário de Estado John Kerry não teve meias palavras quando classificou os casos de tráfico humano que o documento divulga: escravatura moderna.

Ao ler o relatório deparámo-nos com casos em que pessoas são obrigadas a prostituir-se e com situações em que são vítimas de violência se não o fizerem. Qualquer que seja o caso, as vítimas não têm alternativa: os seus documentos foram-lhes roubados (ou confiscados, na versão mais suave).

E isso, como se pode ver pelo relatório norte-americano e confirmar junto de quem recebe estas mulheres, acontece em Macau. Quantas vezes já teremos passado por alguém que vive no território como escravo? A geografia da RAEM ajuda: vivemos num território pequeno. Mas aqui, como em tantas outras situações, saber que existe escravatura em Macau não é sinónimo de inquietação. Isso acontece, mas está tão distante de nós como a Lapónia. Olhamos, mas não vemos.

O mesmo se passa com quem tem responsabilidades para evitar que tal aconteça e zelar por estas pessoas. Como referiu Richard Welford, presidente da Corporate Social Responsability, quando se deslocou a Macau em Março.

Diz o especialista: “Falei com vários casinos em Macau que estão em completa negação sobre esta situação. Posso sair de um casino e ser abordado por três raparigas, mas eles dizem-me ‘Não é nosso problema, isso é fora do casino'”.

E aqui não se fala apenas de casos de mulheres adultas que são obrigadas a vender o corpo. Há também menores de idade, crianças. Pelo menos é o que se diz, assinala o relatório norte-americano. E “o que se diz”, ou seja, o boato é a maior fonte de notícias em Macau e tem uma óptima vantagem: deixa poucas vezes de o ser. Tudo se sabe, nada se confirma.

É isso que acontece por exemplo numa informação que foi divulgada pelo relatório. “Há crianças que são alegadamente sujeitas a tráfico sexual nos casinos de Macau”. Mas há mais informações sobre isto no relatório? Não. Nem os próprios casos que foram julgados e as condenações que daí resultaram permitem saber mais. Só que há indícios de que o problema existe já que – como assinala o documento – no ano passado as autoridades identificaram 24 crianças entre as vítimas de tráfico humano. A própria Juliana Devoy, que gere o Centro do Bom Pastor, referiu ao PONTO FINAL em Março que recolheu 39 menores nos últimos dois anos, 26 das quais em 2013. A religiosa relatou que muitas vezes são as jovens que, por sua livre vontade, se prostituem. Mas aqui, como em muitos casos, convém ter um olhar crítico sobre a expressão “livre vontade”. Diz a irmã Juliana Devoy: “São jovens ignorantes, nunca saíram da China e são facilmente seduzidas”.

O argumento é verdadeiro, mas não apaga os factos: há menores de idade que, em vez de estudarem, se prostituem para ter dinheiro. Assim iniciam um ciclo de indigência que se reproduz tendo por base a mais básica de todas as pobrezas: a de que nem o corpo lhes pertence. E enquanto isso acontece todos os que vivem em Macau olham, passam por estas raparigas que são escravas do proxeneta ou da pobreza, e não vêem.

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