A praga dos jornalistas

Tapau no bufê

Rodrigo de Matos

Apenas duas semanas depois de ter escrito aqui uma crónica sobre a cultura de boicote ao trabalho da comunicação social, eis que acontece em Macau um evento em que é esplanada toda a sabedoria da mais refinada escola do lidar com essa classe incómoda que são os jornalistas.

O Fórum de Alto Nível da Justiça dos Dois Lados do Estreito de Taiwan, de Hong Kong e de Macau teve de tudo: desde cerquinhas a estabelecer uma fronteira para manter os repórteres à distância (não fossem eles chegar muito perto do Dalai Lama – que aliás não estava presente, mas, por via das dúvidas…), até à ausência de traduções simultâneas e à transcrição do discurso de um dos oradores apenas em chinês simplificado. “Neste momento, não posso dizer nada porque o meu chefe falou para fechar a boca”, disse um dos funcionários da equipa de comunicação a quem tinha solicitado ajuda para perceber o que o orador, representante da China Continental, estava a dizer. Ao tentar aproximar-me do palco para tirar fotografias aos oradores, não fui além de meia dúzia de passos para lá da cerca que delimitava o chiqueiro dos jornalistas – semelhante às áreas reservadas em dias de manifestações – , e já tinha um dos seguranças a frustrar-me as intenções: “Tem de voltar para ali”.

Não critico a actuação destes funcionários, pois cumpriam à risca e com toda a competência e educação as ordens que lhes eram dadas. Pelo contrário, assumo mesmo a necessidade de fazer uma crítica, isso sim, à classe jornalística, na qual me incluo. Sim, uma autocrítica. Temos todos de ser capazes de o fazer de vez em quando. Nós somos uns grandes chatos, essa é que é essa. Sempre ali, à procura de notícias e da verdade. E quem é que garante a harmonia, com gente incómoda desta à solta?

A propósito, gostaria de deixar aqui algumas sugestões que todos gostaríamos de ver implementadas já a partir do quarto fórum, para que se galguem novos patamares na protecção da harmonia desinformada. Porque, se há uma coisa que gostamos de ver nesta sociedade é ela a galgar patamares:

  1. Os comunicados e transcrições de discursos devem ser todos traduzidos para aramaico e grafados em escrita cuneiforme mesopotâmica, para dificultar ainda mais a nossa compreensão, uma vez que muitas redacções contam com jornalistas que entendem chinês.
  2. Uma redoma de vidro (quanto menos transparente melhor) a isolar a área dos jornalistas, para não permitir sequer que respiremos o mesmo ar dos oradores (quem é que nós pensamos que somos?).
  3. Sistema de choques por pontos: cada jornalista que cometa um acto considerado incómodo, como fazer uma pergunta, olhar demasiado para o mesmo sítio, etc. soma um ponto e, ao fim de três, leva um choque eléctrico aplicado com um ‘taser’ por um dos assessores. Consta que este método, que é adrenalina e diversão, já foi testado com sucesso na Coreia do Norte.
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